Após mais de uma década fora da elite estadual, clube reaparece com a terceira melhor média de público, superado só por Coritiba e Furacão

Tradicional clube paranaense, com 99 anos de fundação celebrados no dia 1º de maio, o Operário Ferroviário Esporte Clube consolida sua redenção esportiva nesta temporada. Fazendo jus novamente ao apelido de ‘Fantasma’, conquistado em meados dos anos 50, quando o clube ‘assombrava’ as grandes equipes curitibanas, o time de Ponta Grossa garantiu pelo segundo ano seguido uma vaga na Série D do Campeonato Brasileiro. Junto com ela, a inédita classificação para a Copa do Brasil de 2012.

Galeria de troféus ainda não tem título paranaense Foto: Luciano Balarotti

Galeria de troféus ainda não tem título paranaense
(Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Unido ao progresso dentro de campo, segue a torcida apaixonada pelo Operário, que é responsável por um público médio de 4,2 mil pessoas por jogo e superado apenas por Coritiba e Atlético-PR no estado. Torcedores que andaram na bronca com o time que, em casa, não repete o mesmo aproveitamento quando é visitante. Em 12 jogos como mandante, o Fantasma conseguiu cinco vitórias, empatou duas vezes e perdeu outras cinco. Nestas partidas, marcou 14 gols e sofreu 12. Fora de seus domínios o clube honra o apelido e assusta os adversários. O time venceu oito dos 12 jogos que fez fora de casa, empatou dois e perdeu apenas outros dois, para o campeão invicto Coritiba, por 3 a 2, na abertura do returno da competição, e para o Cianorte, na primeira partida da decisão do interior, por 3 a 0. Confrontos em que o time alvinegro marcou 22 gols e sofreu 16. Entre as vítimas, está o Atlético-PR, que perdeu por 2 a 0 dentro da Arena da Baixada no segundo turno.

O 'Fantasma', como é conhecido o Operário de Ponta Grossa, continua assombrando os times grandes, como o Atlético-PR, do experiente Paulo Baier (Foto: Luciano Mendes / Divulgação)

O 'Fantasma', como é conhecido o Operário de Ponta Grossa, continua assombrando os times grandes, como o Atlético-PR, do experiente Paulo Baier
(Foto: Luciano Mendes / Divulgação)

Terceiro colocado no Campeonato Paranaense, o Operário no entanto perdeu o título do interior para o Cianorte, ao cair nos pênaltis por 5 a 4, no Germano Krüger. Apesar desta derrota, atravessa bom momento que em nada lembra o período recente, quando passou dez anos sem disputar competições oficiais – entre 1994 e 2003 – e 16 anos afastado da elite do futebol paranaense.

Trem de montanha-russa
Fundado em 1º de maio de 1912, por funcionários da ferrovia da Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC), o clube foi inicialmente batizado como Foot Ball Clube Operário Ferroviário. E não demorou muito para dominar a liga futebolística local, conquistando diversos campeonatos nos anos 20, garantindo seguidas participações na fase decisiva do ainda incipiente Campeonato Paranaense.

Apesar deste predomínio local, o Operário sempre sucumbiu aos adversários na disputa do título estadual e soma 14 vice-campeonatos ao longo de sua história quase centenária. Os únicos títulos estaduais que o clube conquistou foram os do extinto Torneio Início do Paranaense, em 1927 e 1956, e da 2ª Divisão, em 1969.

Em meio a incontáveis altos e baixos, o Fantasma orgulha-se mesmo do título da Região Sul do Campeonato Paranaense de 1961. O esquadrão alvinegro da época contava com o goleiro Arlindo, que mais tarde tornou-se ídolo no Grêmio, além de Laércio, Daniel, Leocádio, entre outros grandes ídolos operarianos. Mas só ganhou o título regional no ‘Tapetão’.

Após quatro batalhas decisivas com o Coritiba, com dois empates, uma vitória alvinegra por 1 a 0, e outra alviverde por 2 a 0, o Operário ficou com o vice-campeonato da chave pelo saldo de gols pior que o do rival na série de disputas. Mas conseguiu reverter o resultado nos tribunais, comprovando que o Coxa escalou irregularmente o jogador Agapito em dois dos quatro confrontos. Mas na decisão estadual, que teve ainda o Jacarezinho, campeão do Norte Velho, o Operário perdeu o título para o Comercial de Campo Mourão, que havia vencido a Chave Norte.

Apesar disso, a polêmica conquista sobre o Coritiba é lembrada em Ponta Grossa como a maior façanha da história operariana. Como lembra o atual presidente do clube, Carlos Roberto Iurk.

Manteiga já foi goleiro, massagista e treinador (Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Manteiga já foi goleiro, massagista e treinador
(Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

– O melhor time do Operário é o de 1961. Apesar de a época ser diferente, de não haver tanta preparação física, a qualidade técnica era superior. Aquele time tinha o Arlindo, tinha o Leocádio, que depois jogou muitos anos no Coritiba, e o Alex, que jogou no Botafogo de Ribeirão Preto, entre outros.

Daquele elenco que marcou história fazia parte o goleiro ‘Manteiga’, então segundo reserva. No clube desde 1958, o ex-atleta exerceu diversas outras funções no clube como mordomo, massagista, treinou as categorias de base e está até hoje na diretoria, no departamento amador

– Cheguei ao clube para jogar no amador, mas fui quatro vezes para o elenco profissional. Minha maior alegria é participar, há 53 anos, da vida do clube.

O agora dirigente conta a curiosa origem do apelido, pouco adequado a um goleiro, e lembra os momentos ruins que o clube viveu nas últimas décadas.

– Sou chamado de Manteiga desde que tinha 12 anos porque eu era muito nervoso e chorava quando perdia.

Dificuldades fora de campo
Apesar do bom momento do time nos gramados, o Operário ainda sofre com problemas estruturais. Sem um centro de treinamento, os profissionais do clube vivem uma rotina ‘cigana’ na preparação para os jogos. O time treina no Germano Krüger, no campo de um clube amador chamado América, e nos campos de duas empresas da cidade.

Iurk destaca profissionalismo da gestão do clube (Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Iurk destaca profissionalismo da gestão do clube
(Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

O presidente ainda conta que existem outros projetos para ampliar a receita do clube, que já saneou as dívidas que levaram ao fechamento das portas em 1994 e quer ver o Operário não só na Série D, mas crescendo e podendo revelar atletas.

Situação melhor que a que o clube viveu em sua passagem anterior pela presidência, quando foi rebaixado para a Segunda Divisão antes de se afastar das disputas profissionais.

– Eu tinha uma dívida com o Operário porque o time caiu na minha mão. Foi um tempo de aprendizado e de sofrimento. Mas agora estamos saboreando coisas boas. Dos momentos de dificuldade, eu lembro uma vez que, por falta de dinheiro, fomos jogar contra o Grêmio Maringá, e levamos uma cozinha para fazer comida dos atletas dentro do vestiário do Estádio Willie Davids. É uma história que ficou marcada para todo mundo que viveu aquele dia.

História que o presidente Iurk não quer viver novamente no clube, que teve várias mudanças administrativas.

Planos para o Brasileiro
Para a disputa da Quarta Divisão nacional, o Operário deve perder vários de seus principais nomes. O lateral-direito Lisa vai reforçar o Paraná Clube. O goleiro Ivan, os volantes Ceará e Cambará e mesmo o técnico Amilton Oliveira têm propostas de outras equipes e quase que certamente deixarão o clube. Para repor as perdas, o presidente já tem a receita pronta.

– Conversamos com os gestores e já temos uma lista de atletas para reposição. Ainda bem que nossos jogadores chamaram atenção de outras equipes. Mas vamos atrás de alguns nomes que se destacaram nas equipes que nos enfrentaram no Campeonato Paranaense para disputar a Série D.

Thiago e Alexandre lideram a Trem Fantasma (Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Thiago e Alexandre lideram a Trem Fantasma
(Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Torcida apaixonada
Entre os assíduos torcedores do Operário, destacam-se os integrantes da Trem Fantasma, torcida organizada que resgata o apelido que batizava os simpatizantes do clube na época do festejado time de 1961.

A paixão clubística move vários moradores da cidade, como Alexandre Hornung de Mello, presidente da organizada. Que destaca que a maioria dos operarianos não torce paralelamente para outra equipe dos grandes centros do futebol brasileiro.

– Ao menos o pessoal da Trem Fantasma torce só para o Operário. Eu não consigo torcer por outro clube. Desde que eu era criança eu passava na frente do estádio e queria vir aos jogos. O ponta-grossense é orgulhoso das coisas da cidade.

Thiago Moro, um dos fundadores da torcida organizada, que tem cerca de 450 membros cadastrados, também não esconde a expectativa por um bom desempenho da equipe ao longo da temporada. E recorda de momentos em que o Operário esteve mais próximo da elite do futebol nacional.

– O time de 1990, que disputou a Série B do Brasileiro, fez grandes jogos contra o Sport, contra o Guarani, contra o Criciúma, foi um dos melhores que eu vi, e me lembro da escalação completa, mesmo tendo só dez anos na época. E o time atual é muito bom também.

'Seu' Antônio mostra a paixão pelo Operário (Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

'Seu' Antônio mostra a paixão pelo Operário
(Foto: Luciano Balarotti/Globoesporte.com)

Mas não são apenas os integrantes da Trem Fantasma que acompanham regularmente o time. Até mesmo quem não é da cidade, como o comerciante Antônio Batista de Castilho, natural de Assaí, no Norte do estado, adota o Operário como clube do coração. Morador de Ponta Grossa há 23 anos, o ex-corintiano mudou de clube a partir do retorno da equipe ponta-grossense às atividades profissionais.

– Desde a Segunda Divisão que eu acompanho o clube. Para mim, é um orgulho vestir a camisa do Fantasma, nosso querido time aqui do interior do Paraná. Eu acredito que o time deste ano é um dos melhores que já foi montado no interior. A expectativa agora é que o clube traga o título da Série D do Brasileiro para a gente começar a festa do centenário.

Com pôsteres e uma bandeira ocupando lugar de destaque em sua lanchonete, ‘seu’ Antônio até mudou os hábitos profissionais devido à paixão clubística.

– Eu abria a lanchonete aos domingos, mas agora não abro mais, para poder ira aos jogos. Eu sempre vou ao estádio nos jogos em casa. E sempre que posso viajo para ver os jogos longe de casa.

Por Luciano Balarotti (Globo Esporte – 18/5/2011).

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