Ao longo de sua história no futebol, nessas dez décadas de existência, o Operário Ferroviário contou com grandes jogadores, que se tornaram ídolos da torcida
É manhã e os ponteiros do relógio indicam que são 6h15 de um dia qualquer. Os primeiros raios solares penetram o breu da madrugada, que agora vai dormir, indicando o início de mais um dia para a civilização, iluminando uma cuia de chimarrão sobre uma mão. Do último lance de degraus da arquibancada coberta do Germano Krüger, do ponto mais alto do estádio, logo à frente de uma das cabines da imprensa, está um senhor a observar o gramado. Gracindo, como uma coruja – o pai coruja do estádio – está a examinar o que fará neste dia. “Aquele lado ali. esse era o lado bom, o lado de baixo, a descida do Germano”, disse, apontando para a trave que fica para o lado das oficinas, o lado histórico, da história. “É o lado da torcida, da curva. Se sai um gol é só correr e é aquela euforia”, aponta ele que se aposentou do futebol, mas nunca de seu amor pelo clube. José Gracino Sobrinho deixou de ser ex-craque para se tornar um personagem mítico, que ganha um salário mínimo para fazer a manutenção com todo o carinho e cuidado do mundo. Ele é, sem dúvidas, um dos jogadores do passado mais idolatrados. “Não teve nem presidente nem diretor mais operariano que o Gracindo. Ele vive no Operário. Ele pega a faquinha e vai no gramado tirar mato. E não é de hoje que ele faz isso, em 79 ele já estava comigo lidando e ainda jogava. Um dia nós estavamos jogando no campeonato e apagou refletor. Sabendo onde caiu a chave, ele, que estava no campo, jogando, de uniforme saiu do time, pulou o alambrado, ligou e voltou a jogar. Ele é fantástico”, aponta Mikulis Durante esse trabalho, procurou-se fazer uma seleção de todos os tempos. E a melhor conclusão que chegamos foi que aquele time de 1961 é o definitivo. Não só porque foi o melhor grupo que já passou pelo clube, lembrado praticamente como unanimidade entre os entrevistados, mas como uma forma de homenagear os personagens daquela histórica escalação que contava com Arlindo, Daniel, Ribamar, Laércio Hélio Silvestre, Fiuza, Roberto, Jairo, Sílvio, Leocádio e Otavinho – além de Candinho, o 12º jogador. Durante a temporada de 1961 o plantel do alvinegro também contou com Ney Marçal, Madalozzo, Raimundo, Jango, Zeca, Hélio Dias, Ico Dias, Zanetti, Altemir e Uliana. Há de se destacar também Zeca e Alex, que compuseram o ataque alvinegro no final da década de 1950.
Historicamente também o clube teve muitos goleiros bons. Começou já na década de 1910, com Tuffy Nejen, o ‘Satanás’, que, segundo o livro de Cação Ribeiro, tornou-se o goleiro da Seleção Brasileira de Futebol. Outro goleiro operariano também defendeu a uma Seleção (a Seleção Gaúcha, que representou o Brasil em 66 e foi campeão na Taça Bernardo O´Higgins, no Chile) foi Arlindo, que saiu do Operário em 1963 e foi para o Corinthians (como Tuffy) e depois fez história no Grêmio, tornando-se seis vezes campeão gaúcho. Outros goleiros de grande expressão foram Romano, ainda na década de 20, que comoveu a cidade com sua morte e ganhou um túmulo do clube, bem como foi homenageado por clubes da capital; e Ladel, outra lenda viva do gol operariano. Há de se destacar também as atuações de Toco (Pedro Wosgrau, que formava o ‘Trio Final’ ao lado de Bonato e Pazinato) e Ney Marçal, que fecharam o gol operariano entre as décadas de 1940 a 1960. Diomar Guimarães lembra de outros três mais recentes, João Marcos, Dicar e Joceli. Na década de 2000, o goleiro Danilo foi outro grande ídolo do time de 2009 e Ivan do de 2011.
“Na década de 1950 tinha o Miguel, que fazia dupla com o Otavinho. O Zeca era liso de bola, os caras sofriam para marcar ele, marcou muito. Antes dele tinha o Adelar, o ‘Pintado’, que era o oposto do Zeca, era um cavalheiro em campo. O Wosgrau eu vi jogar pouco, então prefiro o Arlindo. Na zaga, Jango e Bonato. Em 1969 teve o Ferrinho. O Paraílio, que era o Motorzinho, e Hélio Dias e o Duílio, enfim, todos esses marcaram época no Operário”, lembra Domingos Silva Souza.
O pesquisador e torcedor Ângelo Defino faz uma breve análise por décadas. “Nos anos 20 tivemos o Brandalize, que foi um dos fundadores do Ferroviário e o Ernesto. Na década de 1970 o Renato Jacaré, o Osni e o Gracindo, que virou bandeira. Na década da casa temos pratas da casa como Pompéia, Charuto, Miranda, Dutra, Josnei, Nilson, Renato… É somos bons de ídolos! Nos anos 90 tem o Dico, o Oliveira, Celso Reis, Liminha, Éder”, recorda Satyro, ex-jogador do Guarani na década de 50, ressalta a qualidade dos jogadores do Operário que ele encarava “A dupla zaga Pazinato e Bonato eram dois homens de quase dois metros de altura. Você disputava uma bola com eles, e mesmo com o corpos avantajados, não te encostavam. Jogavam numa delicadeza que eram tão técnicos que tomavam bola adversário sem usar o corpo”, destaca.
“Na década de 1980 tivemos um ponta-direita, o Adenilson, que foi o melhor jogador que vi jogar nessa posição no Operário. Em um jogo contra o Londrina ele pegou a bola no campo de defesa do Londrina, driblou o time inteiro e fez o gol. O Padreco se destacou em 1969. Naquele time do Mikulis tinha uns bons também, como o Serrano que era muito bom jogador. Teve muita gente boa no operário.
Além dos três goleiros (João Marcos, Dicar e Joceli, já citados, Diomar faz uma escalação dos times que ele viu jogar por posições. “Lateral direito o Ronaldo, que jogou no Corinthians e na Seleção, e o Gracindo. Zagueiro central o André Cajarana, o De Lazzari e o Ricardo, da década de 90. Teve o Dimas também. O Zé Luís, que jogou entre 1981 e 1982, e o Edinelson foram bons como quarto zagueiro. Na lateral esquerda tivemos Flavio Miranda, de 1990 e Ojeda, de 1981. Tivemos bastante volante, como Niel, Salomão, o Celso, que veio do Santos, Draílton, Mocoró e Cambé. Como segundo volante, a torcida não gostava muito dele, mas o Werner era muito elogiado pela imprensa de Curitiba, sem contar ainda o Leomar e o Serginho Paulista. Terceiro homem de campo se destacaram o Danilo Oliveira em 1990, o Dagoberto e o Cambará. Os atacantes que marcaram foram Adilson, grande artilheiro, o Sapuca, que virou ídolo, Adalberto, o Adenilson, que ninguém pegava, Celso Reis, Nikinha e Liminha”, declara.
Em 2004, no retorno, além de Ricardo Pinto como técnico, o Operário contava com Leomar e Carlos Alberto Dias, que haviam jogado pela Seleção Brasileira, Clóvis e Edinelson. Entre os principais ídolos recentes estão o lateral Lisa, prata da casa (embora não ponta-grossense) que atuou pelo Atlético Paranaense e hoje encontra-se no Paraná Clube; e o Atacante Baiano, que até o fechamento desta edição, restando apenas um jogo para o fim do Campeonato Paranaense, era o artilheiro da competição, com 13 gols.
Cação Ribeiro, em sua obra sobre o futebol ponta-grossense, destaca ainda jogadores como Bach, Alberto Piva, Tito Piva, Oscar Serra, Irmãos Meister (Ewaldo, Arnoldo e Alvino), Lulo Martins, João Simonetti, Chicharrão e José Ramos. Paraílio, que estreou no clube em 1937, é apontado como um dos melhores ponteiros do futebol da cidade, com ‘ginga à Garrincha’, segundo a publicação.
Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).
A história de uma torcida sofrida e apaixonada que jamais deixou de apoiar o clube, seja nas glórias em outros estados ou após os tristes licenciamentos
Percorrendo as linhas da história do Operário Ferroviário Esporte Clube no site oficial do clube, há a descrição da torcida como “uma das maiores e mais vibrantes torcidas do sul do Brasil, estando sempre entre as melhores médias de público e renda dos campeonatos que disputa”. Pode parecer papo de torcedor, mas só quem acompanha o clube e presencia esse amor compartilhado no Germano Krüger sabe que é isso e mais um pouco.
“Poucos times do Brasil tem uma torcida ótima como essa. Não há torcida igual no interior do Paraná, nem a do Londrina é igual a nossa aqui. Eles podem até ter mais torcedores, ir 20 mil no estádio, mas não é a mesma vibração. Aqui são 100 anos de glórias”. São palavras de alguém do calibre de Ladel, um dos maiores goleiros que atuaram no Paraná, pentacampeão com o Coritiba e que quebrou o recorde estadual de invencibilidade no Operário, onde se aposentou e continuou morando aqui.
Cândido Neto, narrador dos jogos do alvinegro em uma das rádios da cidade, não esconde a emoção ao falar do Fantasma. Questionado sobre a dificuldade distinguir o amor pessoal com o trabalho profissional, ele fez uma confissão surpreendente. “Eu, que comecei a narrar em 88, não tenho capacidade de separar a emoção de torcedor do profissional. Por isso este será meu último ano de rádio. Estou me aposentando porque não consigo. Temos que separar, mas eu não consigo, eu choro, me emociono no ar. É claro que no programa que eu apresento no dia seguinte não ocorre isso, mas durante as transmissões eu choro ao narrar os gols, minha voz falha. Já falei com o Jocelito e com o Juca que isso está me prejudicando, me judio demais fazendo isso. Não faz bem para minha saúde, então estou me afastando temporariamente”, aponta Cândido, que revelou ter jogado na base do time e disse até ter faltado aulas para ver os treinos do clube.
O experiente jornalista esportivo Altayr Bail chama a atenção para o fato de o clube ter uma torcida renovável e vigorosa. “A torcida do Operário é uma torcida apaixonada. Ela tem um lado muito interessante e positivo que é a renovação. Nessa retirada recente, foram 10 anos fora, mas mesmo quando voltou, em 2004, tinha muitos jovens na torcida do Operário. Então como ganharam gosto pelo time se ele estava fora há 10 anos? Então é muito interessante, passa muito de pai para filho, vê pai, filho e neto no estádio. É uma geração privilegiada que não se deixou vencer pelo tempo. No primeiro ano após a volta, mesmo segunda divisão, a média foi de mais de cinco mil torcedores. Dá para ver que a torcida realmente é sofrida, que sobrevive e enfrenta vários problemas, que acompanha o time onde quer que seja o jogo, mesmo com uma campanha ruim”, declara.
Empresário apoiador e vice-presidente do clube, Lourival Pontarollo foi às lagrimas diante do microfone ao ser entrevistado por uma rádio no início da temporada ao falar da torcida. “Quando cheguei aqui na década de 90, comecei a pegar amor pelo time. E algo que sempre me impressiona é ver toda essa torcida, toda essa vibração do torcedor do Operário”, revelou o dirigente. “Nossa torcida é maravilhosa. Às vezes xingam a gente, mas eu entendo, já estive do outro lado também, já fiquei bravo com diretor por querer resultado. Mas ela é nosso oxigênio, é aquilo que move o time, que dá motivação para os jogadores”, diz o atual presidente Carlos Roberto Iurk.
“O Operário foi uma importante marca na minha infância. Como não existia TV quando eu era uma criancinha pequenina, eu gostava de ouvir os jogos sentada sobre o joelho do meu pai, que ficava me balançando. E hoje eu largo tudo pelo futebol, posso ter um monte de coisa por fazer, mas em dias de jogo, vou ao campo. É muito importante ter algo que goste na vida, lá você esquece de tudo. Sou torcedora de arquibancada, onde ficam os verdadeiros torcedores, próximo aos jogadores, em meio aos que levam o radinho e a gente fica perguntando sobre os lances, sem contar que ali se tem a melhor leitura do jogo”, destaca a jornalista torcedora Marília Woiciechowski, que auxiliou Cação Ribeiro na organização do livro ‘Futebol Ponta-grossense: Recortes da História’.
E quando o jogador vira torcedor, como fica? “Essa torcida é muito marcante. Se tem algo que vou levar pro resto da minha vida e nunca vou me esquecer é do Operário, que conta com um torcedor apaixonado pelo clube. Já virei torcedor mesmo”, declara Baiano, um dos maiores craques do time na atualidade. Vinicius Maciel Gomes, o Pará, que estreou profissionalmente no time de 2010 do Operário, na série D do Brasileiro, e integrou aquele time que ficou em terceiro no paranaense de 2011, também demonstrou seu amor pelo clube. “Minha passagem pelo Operário foi resumida pelo amor, pois amei jogar no clube ponta-grossense. Fiz minha estreia no profissional pelo clube, e isso foi de grande importância na minha carreira. Hoje estou jogando na Áustria, mas estou sempre torcendo pela Família Operário! Sou um torcedor que espera estar voltando ao Operário em breve para dar muitas alegrias a este time, que é o que esta torcida maravilhosa merece. São um bando de loucos, de loucos pelo Operário!”, declarou ao Jornal da Manhã diretamente da cidade austríaca de Bregenz, onde atua no SC Schwarz-Weiß Bregenz.
Atualmente o Operário conta com três torcidas organizadas. A mais antiga delas é a Fúria Jovem, fundada em 17 de junho de 2003, e conta com cerca de 500 membros. É da Fúria Jovem que surgiu a outra torcida organizada, a Fúria Feminina, que reúne as torcedoras do clube integradas à Fúria Jovem. Já a Torcida Trem Fantasma, na sua atual formação, foi criada oficialmente em fevereiro de 2009 e conta com cerca de 300 membros.
Diomar Guimarães não nega o orgulho de ser operariano desde o primeiro dia de vida e diz ser um dos fundadores da primeira torcida organizada do interior do estado. “No dia que eu nasci, meu avô, Alceu Guimarães, que exerceu todos os caros diretivos no Operário, me colocou de sócio. Eu também exerci vários cargos e recebi a homenagem de Sócio Benemérito pelos serviços prestados. Pela minha paixão pelo Operário, fundei a TUF, que era a Torcida Unida do Fantasma, foi a primeira torcida organizada do interior do estado. Depois ainda fundamos a Torcida Trem Fantasma” destaca. Exceto pelo nome, a atual torcida ‘Trem Fantasma’ não tem ligação nenhuma com a da década de 1980.
Apontado como um dos torcedores mais fanáticos do clube, Benedito de Godoy chegou a Ponta Grossa em 1979, pegou amor pelo time e fundou, junto com amigos, a ‘Real Torcida Operariana, que durou entre 1980 e 1988, além de se envolver com cargos ligados ao clube. “O Operário representa muito pra mim. O Operário faz parte de mim, de minha emoção, já tive muitas alegrias com ele. Mas eu não sou o torcedor mais fanático, não. Há alguns mais fanáticos que eu. Tenho um amigo de Fortaleza, por exemplo, que fez a assinatura do Paranaense só para assistir o Operário”, diz o modesto torcedor, que vai a todos os jogos do alvinegro, mesmo nos realizados na casa do adversário.
“A torcida do Operário sempre foi vibrante. Na década de 1960, em que o presidente era o Singer, um porcadeiro, a parte de trás do estádio, perto do muro da Rede, era um estacionamento. Então alguns amigos do presidente entravam com o caminhão lá e era uma festa, eram 20 ou 30 caminhões, às vezes até com porcos dentro. Quando o time entrava em campo era aquele buzinaço”, recorda o torcedor Domingos Silva Souza. “Ah, aquela torcida era fabulosa. Quando e eles abriam aquelas buzinas a ar dos caminhões quando nós entravamos em campo ou saía um gol, olha, era de arrepiar. Impressionante como a torcida do Operário era e é fabulosa”, completa o craque Jairo.
Para o pesquisador Ângelo Defino, o estádio é um local familiar. “Minha paixão vem de família. Minha bisavó foi uma das primeiras torcedoras e seus irmãos um dos fundadores, e meu avô, Odilon Mendes, foi presidente por três vezes. Meu pai me leva desde os cinco anos e até hoje eu vou com ele, em uma paixão cada vez maior, que é um pedaço da gente, um pedaço da nossa história e da nossa cidade. Muito se fala do estresse na medicina, e o futebol é uma válvula de escape, serve para desabafar o excesso de obrigações e das correrias do dia a dia. E ser torcedor não é apoiar o time só nas horas boas, mas também nas difíceis. Nós não vamos ver a vitória, vamos ver o Operário. A gente quer que eles joguem com raça e vontade, que honrem a camisa e nos representem”, destaca. Ele, como pediatra, recomenda que os pais que levem seus filhos ao campo. “Os pais reclamam pra mim que não têm muito tempo para conversar e conviver com os filhos, que passam no trabalho o dia inteiro, quando chegam ou saem, eles estão dormindo ou na escola. Então eu recomendo a esses pais que levem a criança no campo, porque quando se vai com uma criança, precisa chegar uma hora antes pelo menos, não vai chegar na bagunça, e sai uns 15 minutos depois. Então se tem o jogo inteiro, uma hora antes e depois para o pai conversar com a criança, perguntar como está na escola, enfim, ter aquela convivência. Meu pai me criou assim e acho que ele fez muito bem. Grandes conversas e ensinamentos com ele foi no campo do Operário”, recorda.
Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).
O retorno de um time histórico para a Primeira Divisão do Campeonato Paranaensee um emocionante ano centenário que reflete a história do time com derrotas e glórias
Para quem havia acabado de subir da divisão de acesso, como vice-campeão da Série Prata, mal sabia o torcedor o que lhe esperava durante 2010. Muito se falava em “fazer um campeonato paranaense com cautela para não cair”. Manter-se na primeira divisão seria, em teoria, o grande objetivo naquela derradeira estreia na elite do futebol paranaense depois de 16 anos. É a fama do fantasma guerreiro que sempre surpreende faz jus ao apelido.
“Se nós parar para analisar e fazer um panorama de 2009 pra cá, não há o que reclamar. É claro que a torcida pode não estar plenamente feliz no centenário, mas recentemente todos os times tiveram problema no centenário. Mesmo com estruturas gigantescas, o Coritiba e o Corinthians, por exemplo, caíram de divisão no brasileiro ao completar 100 anos”, recorda Julio Cesar Gonçalves.
O radialista esportivo recorda as dificuldades enfrentadas pelo clube, mas que foram superadas em campo. Uma boa colocação no campeonato paranaense e a classificação para uma vaga na primeira edição da Série D com Campeonato Brasileiro. “Em 2010 começou a responsa da primeira divisão, que era muito diferente. Mesmo assim, no primeiro ano, foi quinto no paranaense. Poxa, o grupo gestor, com Dorli Michels e toda dificuldade financeira que teve, fez trabalho espetacular. Claro que houveram todas as criticas, ninguém consegue acertar tudo, mas no geral, muito bem. Mesmo com dificuldade de viajar eles foram sexto no brasileiro que contou com 40 times. Depois dos jogos, na segunda-feira eles não sabiam nem se teriam dinheiro pra pagar a viagem, o hotel e a alimentação dos atletas no domingo. E enfrentou e ganhou de times com estrutura espetacular como o Joinville. Encarou times com investimentos tremendos, com jogadores de quase R$ 40 ou R$ 45 mil e mesmo assim quase passou. Eu nunca mais vou esquecer aquele jogo lá no Rio contra o Madureira, o nosso goleiro Ivan com problema, o goleiro reserva fora, tiveram de jogar com um menino do juvenil o Thiaguinho. E mesmo assim termina em sexto no brasileiro, quase subindo pra série C”, declara.
O atacante Baiano, que posteriormente foi jogar no algoz do Operário naquela Série D (Madureira), lembra que a falta de estrutura prejudicou o time. “Eu acho que 2010 foi coisa do futebol. O Operário não estava estruturado para a Série C. A gente tinha de tudo para passar, mas fomos nos empurrões, o clube tinha dificuldade financeira, e acho que tudo isso influenciou. Tentamos dentro de campo até a última partida do acesso, mas acho que ali foram os deuses do futebol mesmo que não quiseram que a gente subisse. A gente e o torcedor merecia, mas não havia estrutura. Hoje o Operário está mais estruturado, mais preparado, então acho que na próxima vez que nós disputar o brasileiro, o acesso ficará mais fácil com um calendário no ano inteiro”, acredita o craque.
Em 2011 o Operário apresentou a sua melhor campanha no paranaense em 20 anos, conquistando uma honrosa terceira colocação. A empreitada garantiu uma comemorada vaga para a Copa do Brasil de 2012. “Aquele Time incomodava os anfitriões. O pior visitante era o Operário, que quase surpreendeu o Coritiba aqui, e ganhou do Atlético lá em 2011. Fora ele perdeu só para o Coritiba [3X2]. Essa conquista na vaga da Copa do Brasil fui um fato relevante e histórico. Um campeonato que tem três times grandes de Curitiba e ter e força para ficar na frente de outros times fortes, foi muito bom” diz Bail. Em contraste, no brasileiro da série D, o time não apresentou bons resultados. “No paranaense foi uma campanha exemplar, disse muitas vezes que era melhor que o Atlético Paranaense e que merecíamos terminar em segundo. Mas a Premiere Soccer, que dava aporte financeiro, errou ao não segurar o Ivan, o Lisa e o Cambará. Aí fomo para a Série D com mais de um milhão e meio gastos apresentando uma campanha pífia, que não passou da primeira fase. Tá certo que enfrentaram dois paulistas, mas poderia ter conseguido acesso. Se mantivesse o time, muito provavelmente conseguiria ir à frente, como o Oeste que conseguiu, que foi galgando e era do grupo do Operário”, acredita Julio Cesar Gonçalves. Entre os 40 participantes o clube terminou em uma 24º colocação.
Sem grupo gestor e o aporte financeiro terceirizado, o Operário teria de enfrentar um grande desafio no centenário: caminhar com as próprias pernas. Dificuldades eram previstas e elas se confirmaram. “Neste ano voltamos a sofrer com a falta de investimento e do abraço da cidade. Só para colocar esse estádio em ordem para poder disputar o campeonato gastamos quase R$ 200 mil. Despesas que outros times como Roma, Arapongas, Londrina e Cianorte não tem, prefeitura banca. Foi quase como quando eu voltei, quando ninguém queria assumir, eu mesmo quase não quis, com um passivo de R$ 300 mil – que não era culpa de ninguém, coisas de futebol mesmo. Para este ano tivemos que conseguir em campanhas, com associados, com rolos, foi uma loucura, tivemos de fazer algumas dívidas, mas colocamos o clube na disputa”, declara Iurk, lembrando que o Operário é um dos poucos que tem o time de futebol, o patrimônio do time e o clube social.
O primeiro turno do campeonato paranaense foi quase trágico: apenas duas vitórias em onze jogos e uma décima colocação entre os 12 clubes em disputa. Tanto que, ao fim dele, o presidente Iurk falava que seu único objetivo seria não cair para a segunda divisão. O segundo turno começa e logo vem uma goleada do Atlético em Curitiba por 5X0. Quatro dias depois a primeira participação do clube em uma Copa do Brasil e um novo vexame: em suas dependências sofre um revés por 4X0 do Juventude e sequer tem a chance de disputar o jogo de volta em Caxias do Sul. Eliminado em casa. “Em 63 anos como torcedor, esse foi o primeiro jogo do Operário em minha vida que eu saio antes do árbitro apitar o término. O jogo reserva muitas surpresas em um minuto, então nunca saio antes. Mas aquele… foi por muita frustração mesmo. Nem sei em quantos minutos saiu o pênalti. Quando fez o quarto eu saí. Pra mim foi como uma expulsão, como se me expulsassem de dentro do estádio. Como quem diz: ‘o que você está fazendo aí ainda? Já está 4X0’. Nunca me senti assim”, confessa Domingos Silva Souza.
“Foi muito complicado. Vínhamos de um momento difícil no estadual, fazendo um mau primeiro turno. Houve a troca de treinador, o Lio chegou e deu melhorada na equipe. Mas tinham vários jogadores lesionados, inclusive eu. E a responsabilidade foi minha de jogar. O Lio me perguntou e eu disse que tinha condição de jogar, e a gente foi meia boca tentando ajudar, mas infelizmente não conseguimos. Ficamos tristes pra caramba, acho que foi uma das derrotas mais tristes que tive aqui em Ponta Grossa. Mas são coisas do futebol e a gente aprende com a derrota”, declara Baiano, que retornou ao Operário após um ano e meio.
É, Baiano, parece que aprenderam. As duas grandes quedas parecem que estralaram como dois bofetões na face. O fantasma acordou deu início a uma arrancada espetacular nas rodadas finais a imprensa fazia as contas junto com os torcedores sobre as possibilidades reais do time sagrar-se campeão do segundo turno e pleitear uma vaga na final, contra o Atlético Paranaense, o melhor do primeiro turno. E o ponto culminante da boa fase foi o jogo contra o Coritiba aqui, no Germano Krüger – um jogo que foi tratado pela imprensa esportiva da cidade, principalmente por Juca Francischini, como ‘O Jogo do Centenário’. Segundo Baiano, os jogadores tinham noção disso. “Sempre falaram pra gente essa questão de ser “O Jogo do Centenário” e nós focamos nisso. Mesmo sem condição de ser campeões, tínhamos de fazer uma partida para o torcedor sair orgulhoso nesse jogo especial contra o Coritiba. Na preleção, o Lio focou pra gente dar o melhor. Então entramos em campo de cabeça erguida e saímos de cabeça erguida. O torcedor também saiu feliz e isso foi o mais importante. Fazia tempo que nós não fazia uma partida boa contra uma equipe grande e foi legal por nossa parte fazer o torcedor ter um fim de semana feliz, mesmo sem vitória, mas com um empate, a torcida aplaudiu a gente e saímos com o sentimento de dever cumprido. Essa foi minha partida mais marcante pelo o Operário, não só por ser aqui no Germano e ser o Jogo do Centenário contra o Coritiba, mas por fazer dois gols, sendo um deles de bicicleta. Então foi muito gratificante e tornou a partida ainda mais inesquecível”, completou. O sonho do título, entretanto, foi por água abaixo nesse empate com o Coxa, que viria a se tornar campeão antecipado do segundo turno no Atle-Tiba, no último 23 de abril. O déficit na campanha do primeiro turno também tiraram as chances o alvinegro pleitear uma vaga na Copa do Brasil ou na Série D do brasileirão.
Hoje, Lio Evaristo, que assumiu o comando técnico do alvinegro na sexta rodada do primeiro turno, é apontado como o grande herói e salvador da pátria do fantasma. “Quando eu cheguei aqui todo mundo pedia para que eu não deixasse o time cair porque tava terrível. Depois foi criando expectativa nos próprios jogadores. Alguns que estavam machucados foram jogando, vieram reforços, fomos melhorando, ganhando jogos. Hoje estou muito feliz em estar aqui, só não estou mais feliz pelo desenrolar das coisas, não estar em uma posição melhor, mas faz parte. É muito gratificante dirigir o Operário no centenário, é algo que acontece só uma vez na vida e estou muito contente de participar de tudo isso. Tive também uma aceitação muito boa por todos como técnico e tenho muita vontade de seguir no clube, iniciando um projeto do zero aqui; futebol é continuidade”, destaca o técnico do time.
Apesar da melhora do clube no segundo turno, o presidente Carlos Roberto Iurk confessa que pensa seriamente em deixar a presidência no fim do ano. “No fim do ano quero encerrar a carreira. Tem eleição dezembro e acreditamos em uma transição no mesmo grupo. Não quero mais porque a gente cansa, judia. Esse novo modelo de gestão de futebol profissional , da terceirização de parcerias, mais fácil e tranquilo. Com a saída da Premiere nesse ano nós fomos obrigados a assumir o futebol e digo, do fundo do meu coração, que é difícil tocar o futebol nesse modelo de gestão de clube. É incompatível. Pouco depois da derrota contra o Juventude li na imprensa da Curitiba que estamos tocando o futebol em Ponta Grossa de forma amadora. Eu fiquei pensado e realmente é verdade, não somos na área. Eu não sou do futebol, o Pontarollo e o Maurício também não. Temos que colocar gente da área e digo coma toda franqueza da gente que tem vontade. A verdade é que somos torcedores. E esse mundo futebol é complicado, diferente. Hoje ele deve ser gerido por pessoas que sejam do ramo”, pondera, dizendo que um de seus principais objetivo é fechar o ano sem dívidas.
Caso tivesse conseguido uma vaga para a Série D brasileiro, Iurk diz que um dos objetivos seria iniciar a campanha do sócio-torcedor. Mas a ausência na competição atrasou o projeto para 2013. “Agora, nosso sonho é ver Operário jogar de igual pra times grandes e um dia ver o time, no mínimo, em uma Série B do brasileiro. Temos um projeto com apoio de empresários para conseguir uma vaga na Série B, uma meta que deverá ser cumprida dentro de três anos. Temos muitos amigos empresários que estão tão apoiando e o projeto está sendo bem aceito”, destaca Lourival Pontarollo, empresário e vice-presidente do clube. Iurk não esconde o desejo da criação de um Centro de Treinamentos (CT) para a formação de jogadores de base, mas diz que falta o apoio de investidores, seja da cidade ou seja “de fora”, como ocorreu em Irati. Ele não descartou a possibilidade da municipalização do estádio em troca de um CT. “Seria uma questão de avanço. E de fôlego para o caixa do clube o avanço da negociação com a prefeitura . Vejo como uma possibilidade legal a prefeitura municipalizar o estádio, e a instituição doar uma área preparada com um CT pronto. Seria uma grande possibilidade e de benefício mútuo”, diz o presidente, que destaca ainda o projeto de ampliação do Germano Krüger para 15 mil pessoas, lembrando que já tem 32 plantas prontas e resta a conclusão do projeto que parou por falta de recursos financeiros. “O futuro depende basicamente de trabalhar a estrutura do sócio-torcedor e um CT. Isso é básico hoje no futebol profissional. Precisamos formar jogadores da cidade, raçudos, que a torcida se identifique. Todos os que não têm CT e não revelam jogadores tem uma sobrevivência muito difícil”, destaca Bail.
O Prefeito Pedro Wosgrau Filho não descarta a validade e a legalidade de uma possível troca. Mas disse que isso não irá ocorrer na sua gestão. “O poder público não pode fazer investimento em clube de futebol. Não pode ajudar porque é ilegal e não é certo mesmo. Já a municipalização do estádio é possível, primeiro tem que ver interesse do poder público e dos donos do clube, já que ele tem seus investimentos e tudo mais. É uma coisa a ser discutida e avaliada, mas não mais no nosso governo, que encerra em 2012. Estamos buscando fazer investimentos nas áreas de esporte e em outras áreas que atinjam a população, como reformas e construção de campos de futebol, ginásios, academias, entre outros. O que temos recurso estamos direcionando para essas obras”, declara Wosgrau.
Diomar Guimarães não nega sua posição de oposição à atual diretoria. Para ele, as eleições deveriam ser antecipadas para a metade do ano, para que uma nova diretoria iniciasse um trabalho o quanto mais cedo possível. “O Operário hoje é uma Ferrari com motor de Fusca. enquanto não tiverem noção do tamanho do Operário, não vão conseguir tirá-lo do lugar, precisam colocar um motor de Ferrari para ele decolar. A mentalidade de time pequeno não pode existir mais, precisa haver a separação do quadro social com o futebol profissional. Precisamos ter uma forte campanha de sócio-torcedor e reunir diversos investidores que apoiem mensalmente para o time se manter bem. Então vamos tentar procurar debater isso com amplitude, o Operário não pode ficar na mão de somente 200 pessoas, mas deve haver uma discussão com a imprensa, o torcedor, com conselheiros, associados e atual diretoria”, diz.
Por sua vez, Cândido Neto, profissional de imprensa que não esconde seu amor pelo clube, acredita que os atuais comandantes do clube possam fazer um bom trabalho no futuro – mesmo já para o próximo ano. “É inegável a capacidade do Iurk de admitir bem. Trouxe pessoas que não são referências ligadas ao futebol, mas que se apresentam bem como o Pontarollo, o Maurício e o Tico, que ainda serão grandes dirigentes. A redenção pode não ser agora, mas aos 101 anos, com mais trabalho e os dirigentes mais amadurecidos”, conclui.
Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).











