Após boas apresentações no início da década, o Operário decaiu. Temendo a perda do patrimônio por dívidas, diretoria licencia o time do futebol profissional em 1994

O plantel do início da década de 1990 contava com valores como Chicão, Ricardo, Pompéia, João Marcos,Carlinhos, Alemão, Éder, Antunes, Duda, Alex, Serrano, Biro Biro, Ricardinho, entre outros craques.

O plantel do início da década de 1990 contava com valores como Chicão, Ricardo, Pompéia, João Marcos,Carlinhos, Alemão, Éder, Antunes, Duda, Alex, Serrano, Biro Biro, Ricardinho, entre outros craques.

É bem provável que esta foi a década mais fatídica e indigesta do futebol operariano. Antes da metade da década o futebol profissional fechou as portas e assim permaneceu até o fim dos anos 90, sem se falar ou ter perspectiva de uma volta. Quem viu o alvinegro no início da década, não fazia ideia dos tempos obscuros que estariam por vir. Com uma participação razoavelmente expressiva no brasileiro de 89, o alvinegro iniciou 1990 bem estruturado. Na série A do Paranaense e na segunda divisão do Campeonato Brasileiro, demonstrou um bom futebol no estadual. Cação Ribeiro em ‘O Fantasma da Vila’ revela que o clube Classificou-se em primeiro, junto com o Grêmio Maringá, para a fase seguinte, um hexagonal que foi superado, chegando à semifinal, contra o Atlético Paranaense. A outra semifinal foi composta por Coritiba X Paraná Clube.

O Operário ganhou aqui por 2X1, bastava um empate para o Operário lá na Vila Capanema. E perdemos aquele jogo por 1X0, em um gol de pênalti. Como zerou e o empate era do Atlético, ele enfrentou o Coxa na final e o Coritiba foi o campeão. Se nós disputássemos contra o Coritiba na final, certamente seríamos campeões”, declara Diomar Guimarães. “Aquele jogo que o Operário perdeu de 1X0, em um gol de pênalti que foi cometido pelo João Marcos, meu amigo, recém-falecido, em uma atrasada esquisita do Alexandre para o goleiro, foi minha maior decepção com o Operário, já que ele tinha chances reais de conseguir o título paranaense. A imprensa noticiou que poderia ter havido uma venda naquele jogo, enfim… pra mim foi o episódio mais triste como torcedor”, declara Julio Cesar Gonçalves, radialista esportivo e ex-jogador de futebol que teve uma rápida passagem pelo fantasma.

Na série B do brasileiro o desempenho também empolgou. O Operário avançou até a semifinal, que era um quadrangular. Com uma vitória e dois empates, o clube se encaminhava para a final. Mas duas derrapadas diante do Criciúma e da Catuense fora de casa tiraram o Operário da briga. “O Atlético e o Sport fizeram a final e subiram. O Operário conseguiu ganhar dos dois aqui no Germano, mas perdeu para os mais fracos. Por um ponto ele não subiu pra série A do brasileiro”, lembra Defino. O último jogo do Operário foi contra o Atlético Paranaense. “O Atlético veio pra cá precisando vencer, se não iria depender do resultado do Criciúma. No estádio tinham 5 mil torcedores do Atlético e só 500 do Operário, Curitiba veio inteira aqui, invadiu a cidade, era época de München. Quando entrei no campo, que eu ficava sentado no banco, os torcedores ficaram pegando no meu pé, xingando: ‘já vendeu o jogo, Mikulis (…)?’. Mas fomos pro jogo e o Atlético começou ganhando de 1X0. Aí que ganhamos aquele jogo de virada por 2X1. O Nikinha Oliveira fez um golaço de bicicleta. Depois disso, o que o torcedor ia falar? Por um ponto não classificamos. Se tivesse ganho aquele jogo que empatamos aqui contra o Criciúma ou ganho na Bahia contra a Catuense, teria classificado”, recorda Mikulis.

As temporadas de 1991 e 1992 apresentaram uma pequena queda de rendimento nos campeonatos, mas ainda assim com resultados expressivos: 3ª posição na série A do estadual e 29º entre 64 clubes na série B do Campeonato Brasileiro em 1991; 4º na série A do estadual e 6º entre os 20 participantes da série C do Campeonato Brasileiro.

Em outubro de 1992, revela Guimarães, em uma reunião do conselho deliberativo, Carlos Roberto Iurk demonstrou a vontade de ser presidente do Operário. À época, o presidente era Carlos Antonio Pellisari, com Mikulis de diretor. “Eu tinha o desejo da presidência. Já tinha sido presidente do Clube Verde e do ARHT, e um grupo amigos sugeriram que eu fosse presidente do Operário. Eu fazia parte do conselho deliberativo do clube nessa oportunidade, participando das reuniões, e via as dificuldades da diretoria, através o Mikulis, de encontrar uma pessoa que quisesse assumir o Operário. Naquela oportunidade eu me propus a assumir e me coloquei a disposição. Já que não tinha ninguém e eu queria, não teve nem eleição, me tornei presidente”, explica Iurk. “Naquele momento ninguém queria ser presidente do clube. E o Iurk, torcedor fanático, demonstrou o interesse. Então o apoiamos”, completa Mikulis.

Iurk explica que o clube passou por momentos de grandes dificuldades financeiras que impossibilitaram uma campanha melhor nos campeonatos em que estava como presidente. Em 1993, por exemplo, ficou na primeira fase e disputou um torneio da morte, para decidir os times que seriam rebaixados. Para o alívio dos entusiastas, o Operário escapou da segunda divisão. Entretanto, no ano seguinte, o clube não teve a mesma sorte. “A minha passagem pelo Operário foi justamente em 1994, quando fiz toda a pré-temporada, mas não assinei o contrato. Neste ano foi uma grande tristeza, o time caiu duas vezes de divisão no mesmo ano. Caiu da primeira para a segunda no primeiro semestre e, ao tentar a vaga para disputar novamente a primeira divisão no ano seguinte, caiu da segunda para a terceira divisão no segundo semestre. Foi uma derrocada dupla que fez parar o futebol profissional”, aponta Julio Cesar Gonçalves.

Aí surge a questão de 10 entre 10 torcedores: será que um rebaixamento para a terceira divisão deveria representar o fim do clube? O presidente da época (e atual), Carlos Roberto Iurk afirma que pelas circunstâncias e os riscos, a atitude era necessária e foi uma medida radical acertada. “Não tinha condição de manter. Pelas dívidas, ou nós salvava o patrimônio ou nós continuávamos o futebol naquelas condições. Então eu, junto com a diretoria da época, resolvemos licenciar o Operário e acertamos. Tanto que o time e o patrimônio estão aí. Posteriormente o time voltou para a primeira divisão na minha mão e o patrimônio continua com nós. Era um sacrifício, mas que se fazia necessário na época. E tinha que haver essa preocupação com o patrimônio. Tirando os times da capital, no interior do estado só o Operário e o Iraty possuem estádios próprios, o resto são todos da prefeitura, não possuem um palmo de terra” declara o presidente.

Iurk confessa que a derrota seguida da eliminação, que geou o licenciamento do time em 1994, foi o momento de maior tristeza como dirigente. “Aquele foi o momento de maior decepção da minha vida como dirigente de futebol. Todo mundo me abandonou, todos, e eu me vi sozinho exatamente nessa sala aqui [sala dos troféus], com uma fila de jogadores pra acertar. Tive de vender um caminhão na época, mas paguei todo mundo, tudo certinho, e saí com cabeça erguida do clube. E mesmo assim voltei a assumir a presidência alguns anos depois, o que mostra minha paixão pelo clube. Gosto e nunca fugi da responsabilidade”, declara o emocionado presidente.

Para 1995, entretanto, a cidade não ficou sem um representante no futebol profissional. Surge o Ponta Grossa Esporte Clube, que levava as cores da bandeira da cidade. “Nós então fundamos o Ponta Grossa. E foi difícil tocar o Ponta Grossa, porque era um time assim que não tinha torcida, parecida com a história do Paraná Clube: Se o time estivesse bem, ia ver. Se não, não tinha sócio nem nada. Diferente do Operário, era um clube sem tradição”, admite Mikulis. “O Ponta Grossa não deu certo porque o que faltava para o time era torcida – e era o que o Operário tinha. O Ponta Grossa não tinha identidade e o Mikulis sentiu isso. Teve até aquela incorporação do nome ‘Operário’ ao Ponta Grossa (1999), que deu uma melhorada, mas não era o Operário, faltava o calor da torcida”, conclui Bail.

Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).

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