A história de uma torcida sofrida e apaixonada que jamais deixou de apoiar o clube, seja nas glórias em outros estados ou após os tristes licenciamentos

A vibrante torcida apontada pelo site Oficial do OFEC como uma das maiores e mais vibrantes do sul do Brasil

A vibrante torcida apontada pelo site Oficial do OFEC como uma das maiores e mais vibrantes do sul do Brasil

Percorrendo as linhas da história do Operário Ferroviário Esporte Clube no site oficial do clube, há a descrição da torcida como “uma das maiores e mais vibrantes torcidas do sul do Brasil, estando sempre entre as melhores médias de público e renda dos campeonatos que disputa”. Pode parecer papo de torcedor, mas só quem acompanha o clube e presencia esse amor compartilhado no Germano Krüger sabe que é isso e mais um pouco.

“Poucos times do Brasil tem uma torcida ótima como essa. Não há torcida igual no interior do Paraná, nem a do Londrina é igual a nossa aqui. Eles podem até ter mais torcedores, ir 20 mil no estádio, mas não é a mesma vibração. Aqui são 100 anos de glórias”. São palavras de alguém do calibre de Ladel, um dos maiores goleiros que atuaram no Paraná, pentacampeão com o Coritiba e que quebrou o recorde estadual de invencibilidade no Operário, onde se aposentou e continuou morando aqui.

Cândido Neto, narrador dos jogos do alvinegro em uma das rádios da cidade, não esconde a emoção ao falar do Fantasma. Questionado sobre a dificuldade distinguir o amor pessoal com o trabalho profissional, ele fez uma confissão surpreendente. “Eu, que comecei a narrar em 88, não tenho capacidade de separar a emoção de torcedor do profissional. Por isso este será meu último ano de rádio. Estou me aposentando porque não consigo. Temos que separar, mas eu não consigo, eu choro, me emociono no ar. É claro que no programa que eu apresento no dia seguinte não ocorre isso, mas durante as transmissões eu choro ao narrar os gols, minha voz falha. Já falei com o Jocelito e com o Juca que isso está me prejudicando, me judio demais fazendo isso. Não faz bem para minha saúde, então estou me afastando temporariamente”, aponta Cândido, que revelou ter jogado na base do time e disse até ter faltado aulas para ver os treinos do clube.

O experiente jornalista esportivo Altayr Bail chama a atenção para o fato de o clube ter uma torcida renovável e vigorosa. “A torcida do Operário é uma torcida apaixonada. Ela tem um lado muito interessante e positivo que é a renovação. Nessa retirada recente, foram 10 anos fora, mas mesmo quando voltou, em 2004, tinha muitos jovens na torcida do Operário. Então como ganharam gosto pelo time se ele estava fora há 10 anos? Então é muito interessante, passa muito de pai para filho, vê pai, filho e neto no estádio. É uma geração privilegiada que não se deixou vencer pelo tempo. No primeiro ano após a volta, mesmo segunda divisão, a média foi de mais de cinco mil torcedores. Dá para ver que a torcida realmente é sofrida, que sobrevive e enfrenta vários problemas, que acompanha o time onde quer que seja o jogo, mesmo com uma campanha ruim”, declara.

Empresário apoiador e vice-presidente do clube, Lourival Pontarollo foi às lagrimas diante do microfone ao ser entrevistado por uma rádio no início da temporada ao falar da torcida. “Quando cheguei aqui na década de 90, comecei a pegar amor pelo time. E algo que sempre me impressiona é ver toda essa torcida, toda essa vibração do torcedor do Operário”, revelou o dirigente. “Nossa torcida é maravilhosa. Às vezes xingam a gente, mas eu entendo, já estive do outro lado também, já fiquei bravo com diretor por querer resultado. Mas ela é nosso oxigênio, é aquilo que move o time, que dá motivação para os jogadores”, diz o atual presidente Carlos Roberto Iurk.

“O Operário foi uma importante marca na minha infância. Como não existia TV quando eu era uma criancinha pequenina, eu gostava de ouvir os jogos sentada sobre o joelho do meu pai, que ficava me balançando. E hoje eu largo tudo pelo futebol, posso ter um monte de coisa por fazer, mas em dias de jogo, vou ao campo. É muito importante ter algo que goste na vida, lá você esquece de tudo. Sou torcedora de arquibancada, onde ficam os verdadeiros torcedores, próximo aos jogadores, em meio aos que levam o radinho e a gente fica perguntando sobre os lances, sem contar que ali se tem a melhor leitura do jogo”, destaca a jornalista torcedora Marília Woiciechowski, que auxiliou Cação Ribeiro na organização do livro ‘Futebol Ponta-grossense: Recortes da História’.

E quando o jogador vira torcedor, como fica? “Essa torcida é muito marcante. Se tem algo que vou levar pro resto da minha vida e nunca vou me esquecer é do Operário, que conta com um torcedor apaixonado pelo clube. Já virei torcedor mesmo”, declara Baiano, um dos maiores craques do time na atualidade. Vinicius Maciel Gomes, o Pará, que estreou profissionalmente no time de 2010 do Operário, na série D do Brasileiro, e integrou aquele time que ficou em terceiro no paranaense de 2011, também demonstrou seu amor pelo clube. “Minha passagem pelo Operário foi resumida pelo amor, pois amei jogar no clube ponta-grossense. Fiz minha estreia no profissional pelo clube, e isso foi de grande importância na minha carreira. Hoje estou jogando na Áustria, mas estou sempre torcendo pela Família Operário! Sou um torcedor que espera estar voltando ao Operário em breve para dar muitas alegrias a este time, que é o que esta torcida maravilhosa merece. São um bando de loucos, de loucos pelo Operário!”, declarou ao Jornal da Manhã diretamente da cidade austríaca de Bregenz, onde atua no SC Schwarz-Weiß Bregenz.
Atualmente o Operário conta com três torcidas organizadas. A mais antiga delas é a Fúria Jovem, fundada em 17 de junho de 2003, e conta com cerca de 500 membros. É da Fúria Jovem que surgiu a outra torcida organizada, a Fúria Feminina, que reúne as torcedoras do clube integradas à Fúria Jovem. Já a Torcida Trem Fantasma, na sua atual formação, foi criada oficialmente em fevereiro de 2009 e conta com cerca de 300 membros.

Diomar Guimarães não nega o orgulho de ser operariano desde o primeiro dia de vida e diz ser um dos fundadores da primeira torcida organizada do interior do estado. “No dia que eu nasci, meu avô, Alceu Guimarães, que exerceu todos os caros diretivos no Operário, me colocou de sócio. Eu também exerci vários cargos e recebi a homenagem de Sócio Benemérito pelos serviços prestados. Pela minha paixão pelo Operário, fundei a TUF, que era a Torcida Unida do Fantasma, foi a primeira torcida organizada do interior do estado. Depois ainda fundamos a Torcida Trem Fantasma” destaca. Exceto pelo nome, a atual torcida ‘Trem Fantasma’ não tem ligação nenhuma com a da década de 1980.

Apontado como um dos torcedores mais fanáticos do clube, Benedito de Godoy chegou a Ponta Grossa em 1979, pegou amor pelo time e fundou, junto com amigos, a ‘Real Torcida Operariana, que durou entre 1980 e 1988, além de se envolver com cargos ligados ao clube. “O Operário representa muito pra mim. O Operário faz parte de mim, de minha emoção, já tive muitas alegrias com ele. Mas eu não sou o torcedor mais fanático, não. Há alguns mais fanáticos que eu. Tenho um amigo de Fortaleza, por exemplo, que fez a assinatura do Paranaense só para assistir o Operário”, diz o modesto torcedor, que vai a todos os jogos do alvinegro, mesmo nos realizados na casa do adversário.

“A torcida do Operário sempre foi vibrante. Na década de 1960, em que o presidente era o Singer, um porcadeiro, a parte de trás do estádio, perto do muro da Rede, era um estacionamento. Então alguns amigos do presidente entravam com o caminhão lá e era uma festa, eram 20 ou 30 caminhões, às vezes até com porcos dentro. Quando o time entrava em campo era aquele buzinaço”, recorda o torcedor Domingos Silva Souza. “Ah, aquela torcida era fabulosa. Quando e eles abriam aquelas buzinas a ar dos caminhões quando nós entravamos em campo ou saía um gol, olha, era de arrepiar. Impressionante como a torcida do Operário era e é fabulosa”, completa o craque Jairo.

Para o pesquisador Ângelo Defino, o estádio é um local familiar. “Minha paixão vem de família. Minha bisavó foi uma das primeiras torcedoras e seus irmãos um dos fundadores, e meu avô, Odilon Mendes, foi presidente por três vezes. Meu pai me leva desde os cinco anos e até hoje eu vou com ele, em uma paixão cada vez maior, que é um pedaço da gente, um pedaço da nossa história e da nossa cidade. Muito se fala do estresse na medicina, e o futebol é uma válvula de escape, serve para desabafar o excesso de obrigações e das correrias do dia a dia. E ser torcedor não é apoiar o time só nas horas boas, mas também nas difíceis. Nós não vamos ver a vitória, vamos ver o Operário. A gente quer que eles joguem com raça e vontade, que honrem a camisa e nos representem”, destaca. Ele, como pediatra, recomenda que os pais que levem seus filhos ao campo. “Os pais reclamam pra mim que não têm muito tempo para conversar e conviver com os filhos, que passam no trabalho o dia inteiro, quando chegam ou saem, eles estão dormindo ou na escola. Então eu recomendo a esses pais que levem a criança no campo, porque quando se vai com uma criança, precisa chegar uma hora antes pelo menos, não vai chegar na bagunça, e sai uns 15 minutos depois. Então se tem o jogo inteiro, uma hora antes e depois para o pai conversar com a criança, perguntar como está na escola, enfim, ter aquela convivência. Meu pai me criou assim e acho que ele fez muito bem. Grandes conversas e ensinamentos com ele foi no campo do Operário”, recorda.

Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).

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