O retorno de um time histórico para a Primeira Divisão do Campeonato Paranaensee um emocionante ano centenário que reflete a história do time com derrotas e glórias

Em 2011, após uma bela campanha no paranaense, terminando em terceiro, disputou o título de“Campeão do Interior” com o Cianorte, mas foi derrotado nos pênaltis em pleno Germano Krüger

Em 2011, após uma bela campanha no paranaense, terminando em terceiro, disputou o título de“Campeão do Interior” com o Cianorte, mas foi derrotado nos pênaltis em pleno Germano Krüger

Para quem havia acabado de subir da divisão de acesso, como vice-campeão da Série Prata, mal sabia o torcedor o que lhe esperava durante 2010. Muito se falava em “fazer um campeonato paranaense com cautela para não cair”. Manter-se na primeira divisão seria, em teoria, o grande objetivo naquela derradeira estreia na elite do futebol paranaense depois de 16 anos. É a fama do fantasma guerreiro que sempre surpreende faz jus ao apelido.

“Se nós parar para analisar e fazer um panorama de 2009 pra cá, não há o que reclamar. É claro que a torcida pode não estar plenamente feliz no centenário, mas recentemente todos os times tiveram problema no centenário. Mesmo com estruturas gigantescas, o Coritiba e o Corinthians, por exemplo, caíram de divisão no brasileiro ao completar 100 anos”, recorda Julio Cesar Gonçalves.

O radialista esportivo recorda as dificuldades enfrentadas pelo clube, mas que foram superadas em campo. Uma boa colocação no campeonato paranaense e a classificação para uma vaga na primeira edição da Série D com Campeonato Brasileiro. “Em 2010 começou a responsa da primeira divisão, que era muito diferente. Mesmo assim, no primeiro ano, foi quinto no paranaense. Poxa, o grupo gestor, com Dorli Michels e toda dificuldade financeira que teve, fez trabalho espetacular. Claro que houveram todas as criticas, ninguém consegue acertar tudo, mas no geral, muito bem. Mesmo com dificuldade de viajar eles foram sexto no brasileiro que contou com 40 times. Depois dos jogos, na segunda-feira eles não sabiam nem se teriam dinheiro pra pagar a viagem, o hotel e a alimentação dos atletas no domingo. E enfrentou e ganhou de times com estrutura espetacular como o Joinville. Encarou times com investimentos tremendos, com jogadores de quase R$ 40 ou R$ 45 mil e mesmo assim quase passou. Eu nunca mais vou esquecer aquele jogo lá no Rio contra o Madureira, o nosso goleiro Ivan com problema, o goleiro reserva fora, tiveram de jogar com um menino do juvenil o Thiaguinho. E mesmo assim termina em sexto no brasileiro, quase subindo pra série C”, declara.

O atacante Baiano, que posteriormente foi jogar no algoz do Operário naquela Série D (Madureira), lembra que a falta de estrutura prejudicou o time. “Eu acho que 2010 foi coisa do futebol. O Operário não estava estruturado para a Série C. A gente tinha de tudo para passar, mas fomos nos empurrões, o clube tinha dificuldade financeira, e acho que tudo isso influenciou. Tentamos dentro de campo até a última partida do acesso, mas acho que ali foram os deuses do futebol mesmo que não quiseram que a gente subisse. A gente e o torcedor merecia, mas não havia estrutura. Hoje o Operário está mais estruturado, mais preparado, então acho que na próxima vez que nós disputar o brasileiro, o acesso ficará mais fácil com um calendário no ano inteiro”, acredita o craque.

Em 2011 o Operário apresentou a sua melhor campanha no paranaense em 20 anos, conquistando uma honrosa terceira colocação. A empreitada garantiu uma comemorada vaga para a Copa do Brasil de 2012. “Aquele Time incomodava os anfitriões. O pior visitante era o Operário, que quase surpreendeu o Coritiba aqui, e ganhou do Atlético lá em 2011. Fora ele perdeu só para o Coritiba [3X2]. Essa conquista na vaga da Copa do Brasil fui um fato relevante e histórico. Um campeonato que tem três times grandes de Curitiba e ter e força para ficar na frente de outros times fortes, foi muito bom” diz Bail. Em contraste, no brasileiro da série D, o time não apresentou bons resultados. “No paranaense foi uma campanha exemplar, disse muitas vezes que era melhor que o Atlético Paranaense e que merecíamos terminar em segundo. Mas a Premiere Soccer, que dava aporte financeiro, errou ao não segurar o Ivan, o Lisa e o Cambará. Aí fomo para a Série D com mais de um milhão e meio gastos apresentando uma campanha pífia, que não passou da primeira fase. Tá certo que enfrentaram dois paulistas, mas poderia ter conseguido acesso. Se mantivesse o time, muito provavelmente conseguiria ir à frente, como o Oeste que conseguiu, que foi galgando e era do grupo do Operário”, acredita Julio Cesar Gonçalves. Entre os 40 participantes o clube terminou em uma 24º colocação.

Sem grupo gestor e o aporte financeiro terceirizado, o Operário teria de enfrentar um grande desafio no centenário: caminhar com as próprias pernas. Dificuldades eram previstas e elas se confirmaram. “Neste ano voltamos a sofrer com a falta de investimento e do abraço da cidade. Só para colocar esse estádio em ordem para poder disputar o campeonato gastamos quase R$ 200 mil. Despesas que outros times como Roma, Arapongas, Londrina e Cianorte não tem, prefeitura banca. Foi quase como quando eu voltei, quando ninguém queria assumir, eu mesmo quase não quis, com um passivo de R$ 300 mil – que não era culpa de ninguém, coisas de futebol mesmo. Para este ano tivemos que conseguir em campanhas, com associados, com rolos, foi uma loucura, tivemos de fazer algumas dívidas, mas colocamos o clube na disputa”, declara Iurk, lembrando que o Operário é um dos poucos que tem o time de futebol, o patrimônio do time e o clube social.

O primeiro turno do campeonato paranaense foi quase trágico: apenas duas vitórias em onze jogos e uma décima colocação entre os 12 clubes em disputa. Tanto que, ao fim dele, o presidente Iurk falava que seu único objetivo seria não cair para a segunda divisão. O segundo turno começa e logo vem uma goleada do Atlético em Curitiba por 5X0. Quatro dias depois a primeira participação do clube em uma Copa do Brasil e um novo vexame: em suas dependências sofre um revés por 4X0 do Juventude e sequer tem a chance de disputar o jogo de volta em Caxias do Sul. Eliminado em casa. “Em 63 anos como torcedor, esse foi o primeiro jogo do Operário em minha vida que eu saio antes do árbitro apitar o término. O jogo reserva muitas surpresas em um minuto, então nunca saio antes. Mas aquele… foi por muita frustração mesmo. Nem sei em quantos minutos saiu o pênalti. Quando fez o quarto eu saí. Pra mim foi como uma expulsão, como se me expulsassem de dentro do estádio. Como quem diz: ‘o que você está fazendo aí ainda? Já está 4X0’. Nunca me senti assim”, confessa Domingos Silva Souza.

“Foi muito complicado. Vínhamos de um momento difícil no estadual, fazendo um mau primeiro turno. Houve a troca de treinador, o Lio chegou e deu melhorada na equipe. Mas tinham vários jogadores lesionados, inclusive eu. E a responsabilidade foi minha de jogar. O Lio me perguntou e eu disse que tinha condição de jogar, e a gente foi meia boca tentando ajudar, mas infelizmente não conseguimos. Ficamos tristes pra caramba, acho que foi uma das derrotas mais tristes que tive aqui em Ponta Grossa. Mas são coisas do futebol e a gente aprende com a derrota”, declara Baiano, que retornou ao Operário após um ano e meio.

É, Baiano, parece que aprenderam. As duas grandes quedas parecem que estralaram como dois bofetões na face. O fantasma acordou deu início a uma arrancada espetacular nas rodadas finais a imprensa fazia as contas junto com os torcedores sobre as possibilidades reais do time sagrar-se campeão do segundo turno e pleitear uma vaga na final, contra o Atlético Paranaense, o melhor do primeiro turno. E o ponto culminante da boa fase foi o jogo contra o Coritiba aqui, no Germano Krüger – um jogo que foi tratado pela imprensa esportiva da cidade, principalmente por Juca Francischini, como ‘O Jogo do Centenário’. Segundo Baiano, os jogadores tinham noção disso. “Sempre falaram pra gente essa questão de ser “O Jogo do Centenário” e nós focamos nisso. Mesmo sem condição de ser campeões, tínhamos de fazer uma partida para o torcedor sair orgulhoso nesse jogo especial contra o Coritiba. Na preleção, o Lio focou pra gente dar o melhor. Então entramos em campo de cabeça erguida e saímos de cabeça erguida. O torcedor também saiu feliz e isso foi o mais importante. Fazia tempo que nós não fazia uma partida boa contra uma equipe grande e foi legal por nossa parte fazer o torcedor ter um fim de semana feliz, mesmo sem vitória, mas com um empate, a torcida aplaudiu a gente e saímos com o sentimento de dever cumprido. Essa foi minha partida mais marcante pelo o Operário, não só por ser aqui no Germano e ser o Jogo do Centenário contra o Coritiba, mas por fazer dois gols, sendo um deles de bicicleta. Então foi muito gratificante e tornou a partida ainda mais inesquecível”, completou. O sonho do título, entretanto, foi por água abaixo nesse empate com o Coxa, que viria a se tornar campeão antecipado do segundo turno no Atle-Tiba, no último 23 de abril. O déficit na campanha do primeiro turno também tiraram as chances o alvinegro pleitear uma vaga na Copa do Brasil ou na Série D do brasileirão.

Hoje, Lio Evaristo, que assumiu o comando técnico do alvinegro na sexta rodada do primeiro turno, é apontado como o grande herói e salvador da pátria do fantasma. “Quando eu cheguei aqui todo mundo pedia para que eu não deixasse o time cair porque tava terrível. Depois foi criando expectativa nos próprios jogadores. Alguns que estavam machucados foram jogando, vieram reforços, fomos melhorando, ganhando jogos. Hoje estou muito feliz em estar aqui, só não estou mais feliz pelo desenrolar das coisas, não estar em uma posição melhor, mas faz parte. É muito gratificante dirigir o Operário no centenário, é algo que acontece só uma vez na vida e estou muito contente de participar de tudo isso. Tive também uma aceitação muito boa por todos como técnico e tenho muita vontade de seguir no clube, iniciando um projeto do zero aqui; futebol é continuidade”, destaca o técnico do time.

Apesar da melhora do clube no segundo turno, o presidente Carlos Roberto Iurk confessa que pensa seriamente em deixar a presidência no fim do ano. “No fim do ano quero encerrar a carreira. Tem eleição dezembro e acreditamos em uma transição no mesmo grupo. Não quero mais porque a gente cansa, judia. Esse novo modelo de gestão de futebol profissional , da terceirização de parcerias, mais fácil e tranquilo. Com a saída da Premiere nesse ano nós fomos obrigados a assumir o futebol e digo, do fundo do meu coração, que é difícil tocar o futebol nesse modelo de gestão de clube. É incompatível. Pouco depois da derrota contra o Juventude li na imprensa da Curitiba que estamos tocando o futebol em Ponta Grossa de forma amadora. Eu fiquei pensado e realmente é verdade, não somos na área. Eu não sou do futebol, o Pontarollo e o Maurício também não. Temos que colocar gente da área e digo coma toda franqueza da gente que tem vontade. A verdade é que somos torcedores. E esse mundo futebol é complicado, diferente. Hoje ele deve ser gerido por pessoas que sejam do ramo”, pondera, dizendo que um de seus principais objetivo é fechar o ano sem dívidas.

Caso tivesse conseguido uma vaga para a Série D brasileiro, Iurk diz que um dos objetivos seria iniciar a campanha do sócio-torcedor. Mas a ausência na competição atrasou o projeto para 2013. “Agora, nosso sonho é ver Operário jogar de igual pra times grandes e um dia ver o time, no mínimo, em uma Série B do brasileiro. Temos um projeto com apoio de empresários para conseguir uma vaga na Série B, uma meta que deverá ser cumprida dentro de três anos. Temos muitos amigos empresários que estão tão apoiando e o projeto está sendo bem aceito”, destaca Lourival Pontarollo, empresário e vice-presidente do clube. Iurk não esconde o desejo da criação de um Centro de Treinamentos (CT) para a formação de jogadores de base, mas diz que falta o apoio de investidores, seja da cidade ou seja “de fora”, como ocorreu em Irati. Ele não descartou a possibilidade da municipalização do estádio em troca de um CT. “Seria uma questão de avanço. E de fôlego para o caixa do clube o avanço da negociação com a prefeitura . Vejo como uma possibilidade legal a prefeitura municipalizar o estádio, e a instituição doar uma área preparada com um CT pronto. Seria uma grande possibilidade e de benefício mútuo”, diz o presidente, que destaca ainda o projeto de ampliação do Germano Krüger para 15 mil pessoas, lembrando que já tem 32 plantas prontas e resta a conclusão do projeto que parou por falta de recursos financeiros. “O futuro depende basicamente de trabalhar a estrutura do sócio-torcedor e um CT. Isso é básico hoje no futebol profissional. Precisamos formar jogadores da cidade, raçudos, que a torcida se identifique. Todos os que não têm CT e não revelam jogadores tem uma sobrevivência muito difícil”, destaca Bail.

O Prefeito Pedro Wosgrau Filho não descarta a validade e a legalidade de uma possível troca. Mas disse que isso não irá ocorrer na sua gestão. “O poder público não pode fazer investimento em clube de futebol. Não pode ajudar porque é ilegal e não é certo mesmo. Já a municipalização do estádio é possível, primeiro tem que ver interesse do poder público e dos donos do clube, já que ele tem seus investimentos e tudo mais. É uma coisa a ser discutida e avaliada, mas não mais no nosso governo, que encerra em 2012. Estamos buscando fazer investimentos nas áreas de esporte e em outras áreas que atinjam a população, como reformas e construção de campos de futebol, ginásios, academias, entre outros. O que temos recurso estamos direcionando para essas obras”, declara Wosgrau.

Diomar Guimarães não nega sua posição de oposição à atual diretoria. Para ele, as eleições deveriam ser antecipadas para a metade do ano, para que uma nova diretoria iniciasse um trabalho o quanto mais cedo possível. “O Operário hoje é uma Ferrari com motor de Fusca. enquanto não tiverem noção do tamanho do Operário, não vão conseguir tirá-lo do lugar, precisam colocar um motor de Ferrari para ele decolar. A mentalidade de time pequeno não pode existir mais, precisa haver a separação do quadro social com o futebol profissional. Precisamos ter uma forte campanha de sócio-torcedor e reunir diversos investidores que apoiem mensalmente para o time se manter bem. Então vamos tentar procurar debater isso com amplitude, o Operário não pode ficar na mão de somente 200 pessoas, mas deve haver uma discussão com a imprensa, o torcedor, com conselheiros, associados e atual diretoria”, diz.

Por sua vez, Cândido Neto, profissional de imprensa que não esconde seu amor pelo clube, acredita que os atuais comandantes do clube possam fazer um bom trabalho no futuro – mesmo já para o próximo ano. “É inegável a capacidade do Iurk de admitir bem. Trouxe pessoas que não são referências ligadas ao futebol, mas que se apresentam bem como o Pontarollo, o Maurício e o Tico, que ainda serão grandes dirigentes. A redenção pode não ser agora, mas aos 101 anos, com mais trabalho e os dirigentes mais amadurecidos”, conclui.

Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).

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