O título da Zona Sul contra o Coritiba e a derrota na grande final de 61 para o Comercial marcam a década. Time decai, é rebaixado e depois ganha seu último campeonato

O histórico time que venceu o Iraty com Ribamar, Roberto, Daniel Chibisnki, Laércio, Arlindo, Hélio Silvestre; Jairo, Fiuza, Silvio Cosmoski, Leocádio e Otavinho.

O histórico time que venceu o Iraty com Ribamar, Roberto, Daniel Chibisnki, Laércio, Arlindo, Hélio Silvestre; Jairo, Fiuza, Silvio Cosmoski, Leocádio e Otavinho.

Quando se fala em década de 1960 no Operário, se fala na maior conquista do clube: encarar o Coritiba de igual pra igual em quatro jogos na final de 1961 e ser aclamado com o título da Zona Sul do Campeonato Paranaense. O time de 1960, não apresentou um bom rendimento e terminou o campeonato estadual na sexta colocação. Em 1961, o time sofreu apenas duas derrotas em 23 jogos. “Era uma equipe bastante mesclada, com jogadores novos, como eu e o Daniel, e jogadores mais velhos, como o Otavinho. Pode ser por isso que deu certo”, relembra Leocádio Consul, um dos craques do time de 1961, o camisa nº 10 daquele elenco.

Para que o Operário pudesse passar para a grande final da Zona Sul e enfrentar o Coritiba, campeão do primeiro turno, o Operário precisava vencer o último jogo contra o Iraty na casa do adversário, em uma disputa direta da vaga para a final. “Daqui foram 18 trens lotados de gente, mais de 1.200 pessoas estiveram lá torcendo pelo Operário”, revela o torcedor e pesquisador Ângelo Defino. Após um jogo aguerrido, a vitória veio pelo placar mínimo. “Ganhamos de 1X0. Eu mandei pro Sílvio e ele carimbou. Eu matei na mão aquela bola que passei pro Sílvio”, confessa Leocádio. “O Operário ganhou pela torcida. O Iraty tinha um timaço, com ataque arrasador. Foi um jogo dificílimo, verdadeira guerra campal, com gol de Sílvio Cosmoski, um tirambaço de fora da área. No final houve briga entre as torcidas, uma confusão total, até o trem foi apedrejado”, diz Altayr Bail. A festa em Ponta Grossa foi gigantesca.

Depois desse desafio superado, a missão era despachar o Coritiba em três jogos. O primeiro jogo foi na capital, no Belford Duarte, campo do alviverde. Superando todas as expectativas o Operário surpreendeu os donos da casa. “Ganhamos aquela primeira partida lá por 2X0. Nesse jogo eu tive uma trinca no peito do pé. No intervalo, o médico anestesiou, enfaixou, passou esparadrapo e voltei em campo. Foi uma das melhores partidas que fiz como profissional, talvez a melhor que fiz na vida. Os gols foram do Sílvio e do Otavinho, ambos com assistência minha”, recorda Jahir Pawloski, o Jairo, um dos guerreiros daquele time. No segundo jogo, bastava uma simples vitória em casa para consolidar o título. Porém o Operário não conseguiu ser superior ao rival e o empate foi inevitável. “Ainda sem se recuperar totalmente da fratura no pé, joguei aqui no Germano no domingo seguinte e fiz o gol naquele jogo que terminou empatado. Foi inesquecível, uma alegria imensa aquela torcida toda gritando, uma de minhas maiores glórias no esporte”, lembra Jairo. “Encheu de gente o campo aquele dia. Lembro que tinha por volta de 11 mil pessoas em Vila Oficinas. Assisti no alambrado por um frestinho”, afirma Domingos.

O terceiro jogo foi em Curitiba, novamente no estádio do Coxa. Bastava um empate para o alvinegro. Mas o placar teimou em ser desfavorável ao Operário em 3X0. “Fizeram então um quarto jogo, que em teoria seria em um campo neutro”, explica Altayr Bail. O campo escolhido, segundo Leocádio, foi o do Ferroviário. É o famoso e polêmico jogo do impedimento não marcado no gol do Coritiba. “O Militnho estava dois metros impedido. E ele sabia, depois do chute virou e nem comemorou. Mas o árbitro validou”, completa. O prélio foi para a prorrogação, mas ninguém anotou e o Coritiba comemorou o título. Edmundo Giostri, diretor de futebol do clube, contou um episódio curioso. “O detalhe é que eu dirigi o clube nos dois jogos da final lá em Curitiba. O treinador, Joaquim Loureiro, que era do Rio e assumiu o clube depois do Hortêncio, veio falar comigo e disse que não ia ficar. Eu tenho a impressão de que o Coritiba andou dando dinheiro pra ele”, acredita.

Entretanto a batalha não acabou aí. O Paraguaio naturalizado brasileiro Agapito Sanchez era amador em Guarapuava e não havia completado o estágio legal antes de jogar profissionalmente pelo Coritiba. O Operário entrou com um recurso. Edmundo Giostri conferiu de perto a questão nos tribunais. “Eu estava lá no Supremo. Lá eles deram ganho causa pra nós. O juiz perguntou: ‘você não quer eu decida a outra fase? Se quiser decidimos e ponto final’. Aí o nosso advogado disse ‘não, vamos resolver em Ponta Grossa’. Aí demorou ser julgado e depois tinham vendido boa parte dos jogadores quando precisou jogar”, recorda.

“Por uma canetada o Operário poderia ter sido o campeão paranaense, mas preferiram ganhar em campo para ficar mais bonito”, completou Bail.

Com o resultado favorável e o título da Zona Sul, a quinta-feira foi de grande festa na cidade.

Os craques de 1961 recebem, no Germano Kruger, a faixa de campeões da zona sul

Os craques de 1961 recebem, no Germano Kruger, a faixa de campeões da zona sul

A derrota final estadual
Para ser campeão estadual ele precisava vencer o triangular que contava com a Associação Esportiva Jacarezinho (Zona Centro Oeste), e o Comercial de Cornélio Procópio (Zona Norte). O Operário perdeu o jogo contra o Comercial foi vice. “O time desfez quando foram realizados os jogos. Fomos jogar o primeiro só em agosto de 62. Dos 11, só cinco ou seis ficaram e a maioria estava fora de forma”, declara Jairo. A falta de estrutura, segundo o craque, também foi um agravante. ”Viajamos em um ônibus como desses de transporte escolar de hoje, sem sequer ter banco reclinável. Passamos a noite inteira viajando. Eu viajei deitado no corredor do ônibus, no piso, fazendo da minha bolsa o travesseiro para tentar dormir um pouco para tentar render mais no jogo. Eu particularmente acho que esses jogadores foram os verdadeiros heróis”, completa Jairo. “É preciso entender a mentalidade da época. Para o torcedor, era a Zona Sul que interessava, o vencedor dali era considerado o campeão do estado – e isso vencemos. É como a Champions League na Europa, que é mais importante para os clubes de lá do que o Mundial”, compara Defino.

Neste meio tempo, no início de 1962, o Operário disputou o ‘Torneio da Legalidade’, considerado um ‘Sul-brasileiro’, que reunia o campeão e o vice dos estados do sul do país no ano anterior, Pela importância da Zona Sul, Operário e o Coritiba foram os representantes paranaenses, encarando rivais como o Grêmio e o Internacional de Porto Alegre, o Marcílio Dias e o Metrópole. O Operário chegou a arrancar um empate do Internacional em Porto Alegre, mas com apenas três vitórias em 10 jogos, terminou a competição em 5º.

Após o revés na final, o declínio do clube
Desde então, o Operário nunca mais foi o mesmo. Uma de suas piores campanhas na história foi no Campeonato Paranaense da Zona Sul de 1965, quando venceu apenas duas partidas em um campeonato de 24 jogos. O Operário foi rebaixado. O clube permaneceu como coadjuvante nesta divisão até 1969, quando voltou a erguer um troféu. Foi o último título do Operário. “O time de 1969, embora na segunda divisão, fez uma campanha belíssima e empolgou os torcedores. Depois de perder a primeira, contra o Rio Branco, não perdeu mais”, explica Altayr Bail. Decidiu então o título com o Comercial de Cascavel, campeão da outra chave. Na melhor de três partidas, foi surpreendido em Cascavel no primeiro jogo, mas se recuperou e venceu os dois seguintes, sendo o último deles no “Durval de Britto e Silva”, com o placar de 2X0, anotados por Camalofski e Padreco.

JAIRO:
Memória visual da final contra o Iraty

Quando fomos decidir o segundo turno em Irati, o nosso técnico, Hortêncio de Souza, deu um grito apontando pro lado quando nosso ônibus fazia uma ultrapassagem na estrada que ainda era de pó, para Irati, ‘Olhem, vejam por que vocês precisam ganhar esse jogo’. Os torcedores do Operário estavam num caminhão de porco, deitados onde iam os porcos. Na minha opinião, ali nós ganhamos do Iraty. Lembro que me emocionei muito, chorei de ver aquele pessoal. Eu era muito criança ainda. O mais impressionante era ver que eles estavam deitados mesmo onde iam os porcos, e não de pé. Depois, quando chegamos em Irati, o restaurante que ia dar almoço se recusou a nos dar o alimento. Aí nós almoçamos no restaurante do Trem Fantasma. Comemos bem, o ‘chef’ do restaurante era pai do Engenheiro Ubiratan Martins, o ‘Seu’ Gaudêncio Martins, que acolheu a delegação do Operário, fez o almoço para nós e almoçamos no vagão restaurante mesmo. Uma grande emoção foi ver, numa curva, naquela maquina estava escrito ‘Torcida volante do Operário. Trem Fantasma’. Na volta, após a vitória nossa, o pessoal apedrejou o trem.

Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).

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