Dez anos longe dos gramados, Operário retorna ao futebol profissional por arrojo da diretoria em 2004. Episódios conturbados e a volta à elite do futebol mercam 2009

Em 2008, o Operário realizou uma boa campanha na Série B do Paranaense, mas não obteve a classificação para a elite no último jogo, em Foz do Iguaçu, em uma partida que não foi até o fim

Em 2008, o Operário realizou uma boa campanha na Série B do Paranaense, mas não obteve a classificação para a elite no último jogo, em Foz do Iguaçu, em uma partida que não foi até o fim

Com o licenciamento do Ponta Grossa e a posterior parceria com a ADAP, de Campo Mourão, a cidade ficou sem um clube para disputar o campeonato paranaense de futebol profissional. “O Mikulis já estava desgastado e surgiu essa proposta do Campo Mourão. Sem um time de futebol, o Operário se entusiasmou em voltar com o Silvio Gubert, então presidente. Eles retornaram em 2004 na segunda divisão”, diz o comentarista Altayr Bail. “Como o Campo Mourão subiu em 2003, ano da parceria, a ADAP já não mais interessava para eles em 2004. Então eles me devolveram o Ponta Grossa. Como o Operário queria voltar, eu ofereci a vaga do Ponta Grossa na série A do paranaense em troca da quitação de R$ 100 mil em dívidas trabalhistas – não precisava nem pagar na hora. Mas eles não aceitaram, disseram que preferiam subir por conta. Conseguiram subir só em 2009, mas veja quanto que eles gastaram nesse período”, comenta Mikulis.

Sem disponibilizar de muitos recursos financeiros, mas com muita vontade de voltar a disputar o campeonato, Altayr Bail disse que o retorno só foi possível pela força da torcida do Operário. “Eu me atrevo a dizer que o Operário só subexiste no futebol por causa dessa torcida maravilhosa. O Silvio Gubert e o Sílvio Cosmoski (presidente e vice, respectivamente) entraram no peito e na coragem por quê? Porque sabia que teria o torcedor ao lado dele, que não iria faltar torcida no estádio. Esse retorno foi mais um arrojo diretorial, já que achavam que na segunda divisão não teriam tanta responsabilidade de montar um bom time, achavam que tinha que, no mínimo, participar, sem muito investimento de fora, já que não tinham como garantir recursos. Eles tiveram muita fé e coragem na torcida, com ingresso barato. E não faltou apoio. Tanto que desde a voltar tivemos boa renda, com uma média de cinco mil torcedores por jogo, apresentando uma campanha até razoável”, recorda Bail.

As campanhas seguintes seguiram entre altos e baixos até a ascensão, em 2009. Desde a sua volta, foram seis temporadas disputando a série B do Paranaense, sem deixar de se envolver em episódios conturbados. “De 2005 em diante o time começou melhorar. O que atrapalhou mesmo foi episodio do Bruxo (um escândalo em que o presidente do Conselho Deliberativo, Silvio Gubert, admitiu o pagamento de propina para evitar que o clube fosse prejudicado pela arbitragem – Bruxo seria alguém ligado à arbitragem. Gubert, apontado como ‘ingênuo’, afastou-se do clube). Aquilo foi notícia nacional, e o Operário foi muito prejudicado por envolver a arbitragem e a própria Federação. Superado aquilo em 2006, parceria que o Operário subiria em 2008, lá contra o Foz do Iguaçu. Mas fizeram a bobagem abandonar campo. Estavam ganhando de 1X0, estavam subindo ali, e surgiu o pênalti, contestado em campo. Mas deixassem coisa acontecer, deixassem o bater. Nervosos como estavam, podiam bater pra fora ou errarem”, destaca Bail. Neste episódio, acompanhado por centenas de torcedores operarianos que viajaram para a cidade da fronteira, bastava a vitória por 1X0 que o time segurou até os 40 minutos do segundo tempo. Um pênalti foi marcado contra o Operário, uma confusão se fez em campo e o time abandonou o gramado, alegando falta de segurança. O jogo não terminou e o sonho foi adiado por mais um ano.

Finalmente, em 2009, após 16 anos sem disputar a primeira divisão do Campeonato Paranaense, o Operário, com o grupo gestor, obtêm a classificação para a elite do futebol estadual. Entre 10 times, o Operário passou a primeira fase em quinto. E no hexagonal apresentou um ótimo futebol, perdendo apenas uma partida nos oito primeiros jogos, com cinco vitórias. Quem explica é um dos maiores ídolos atuais do clube, Nivaldo José da Costa, o Baiano, que foi um dos principais protagonistas naquele campeonato. “Cheguei no Operário em 2009, para disputar o acesso. Foi um campeonato difícil porque o clube não estava estruturado como hoje. Mas da mesma forma que foi difícil foi muito gratificante porque jogamos o acesso e conseguimos a vaga após 16 anos sem estar na série A”, afirma. Foi dele o gol da classificação no Estádio dos Pássaros, contra o Arapongas. “Aquele gol do acesso foi muito gratificante, muito especial. Era um jogo difícil contra o Arapongas, fora de casa. E foi um gol muito bonito, então juntou o fato individual de ser bonito e ser o gol que deu o acesso“. Baiano foi o artilheiro do Operário na competição, com sete gols.

Depois, bastou o empate sem gols aqui em Ponta Grossa, no Germano Krüger, diante da Portuguesa Londrinense, para confirmar a ascensão. Para os ponta-grossenses e operarianos, esse jogo, no chuvoso dia da festa de Sant’Ana, foi o do adeus aos momentos de sofrimento. “Naquele jogo de acesso o estádio estava cheio. O registro oficial era de oito mil e quinhentos, mas falam que tinha mais de 10 mil”, recorda Defino. “Aquele jogo foi fantástico, a vibração, o povo atravessando de joelho o campo, na chuva. A torcida do Operário literalmente lavou a alma naquele dia. A grande festa na Avenida, também… enfim, foi uma maravilha”. O artilheiro Baiano conta que um episódio ficou marcado em sua memória naquele fim de semana. “ Todos aqueles torcedores em baixo de chuva, e depois aquela carreata para a Avenida são inesquecíveis. Uma imagem que eu não esqueço é de um senhor que não tinha uma perna, que subiu tudo isso aqui de muleta, foi acompanhando o caminhão do Corpo de Bombeiros daqui do Germano até a Avenida, na chuva. Então são coisas que eu falo sempre e que nunca esqueço. A paixão do ponta-grossense pelo Operário é muito grande e isso marca a gente, destaca o artilheiro.

O Operário perdeu a última partida do hexagonal para o Roma no estádio Bom Jesus da Lapa, terminando o campeonato empatado em pontos com o Serrano, de Prudentópolis. A desvantagem no saldo de gols, por dois tentos, rendeu ao fantasma alvinegro o vice-campeonato, e adiou mais uma vez o desejo de trazer um troféu paranaense para casa – uma seca que já dura 43 anos.

Por Fernando Rogala (JMNews – 1/05/2012).

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