Especialista aponta dificuldade de marcas terem retorno com 4ª divisão; solução seria investimento a longo prazo

A viagem é longa, desgastante, dispendiosa, pouca gente vê e pior, com lucro e retorno quase zero. O perfil da quarta divisão do campeonato brasileiro não é nem um pouco atraente para os clubes, que ainda assim, preferem se arriscar em um campeonato que pode durar até quatro meses e ainda assim significar prejuízos certos.

Sem qualquer ajuda da CBF e quase nenhuma visibilidade na mídia, a Série D do Campeonato Brasileiro é uma aposta de clubes que sonham em um dia integrar pelo menos a segunda divisão nacional (onde teria o retorno dos investimentos feitos nas divisões anteriores), ou ainda um espaço destinado às agremiações que foram perdendo espaço no futebol nacional nos últimos anos.

Para Thiago Scuro, professor do MBA Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, e coordenador de marketing do Sendas (equipe ligada ao grupo empresarial Pão de Açúcar), um dos 40 integrantes da quarta divisão nacional, as divisões inferiores do Campeonato Brasileiro são economicamente inviável, e só podem ter alguma importância para quem vislumbra algo maior nos próximos anos. “As séries D e C, economicamente, não conseguem ser viáveis. A única solução para as equipes é investir para iniciar um equilíbrio lá na frente, na Série B, que é onde as marcas têm algum retorno, com visibilidade pelo menos duas vezes por semana na televisão”, analisa.

Ainda assim, Scuro alerta para a grande possibilidade deste investimento falhar, por conta do regulamento da competição. “Ainda assim, algumas incoerências nos acessos dos útimos anos mostram que nem sempre o melhor estruturado consegue subir. O mata-mata não ajuda, e aí a viabilidade não tem como ser atingida mesmo”.

O retorno dos patrocinadores das equipes que jogam a quarta divisão nacional, inclusive, é um dos maiores desafios. Sem transmissão televisiva e pouco espaço em grandes veículos de comunicação, a competição desperta pouco interesse dos patrocinadores. “O retorno da marca para clubes em geral é o grande desafio. Uma alternativa pode ser intensificar o relacionamento com sua comunidade local, já que não há grande exposição. Ter essa ligação tem se mostrado importante, porque equipes que não têm uma torcida tão grande, no momento em que começam a disputar espaço com times de grande torcida no país, como Corinthians, Palmeiras, entre outros, ficam em desvantagem. E o custo do futebol hoje em dia é muito alto, e o desafio de alavancar receita com ele é cada vez maior”.

Exemplo pode vir da Holanda
A solução para tornar a Série D viável para os clubes pode estar em exemplos de outros países. Thiago Scuro aponta a liga da Holanda como exemplo. No país atual vice-campeão mundial, 17% dos lucros obtidos na primeira divisão são repassados para serem divididos igualmente entre as equipes da segunda divisão (o futebol holandês dispõe de apenas duas divisões). “Os dirigentes de lá entendem que para uma primeira divisão forte, é preciso que a segunda melhore. É preciso uma visão mais corporativista”.

Ainda assim, o especialista admite que esta revisão de conceitos ainda está longe de ser possível no Brasil. “Sem investimento não se pode crescer, e seria interessante se os clubes da primeira divisão, que têm um alto investimento, destinassem uma pequena fatia deste orçamento às divisões inferiores. Mas isso é algo muito difícil de acontecer, devido à visão dos clubes. Haja visto a negociação dos direitos televisivos que aconteceu recentemente, onde cada um pensou somente nos seus interesses imediatos” lamenta. “Precisaria de uma análise mais profunda, a Série C também precisaria se estruturar. A TV estatal (TV Brasil) chegou a sinalizar com a transmissão dos jogos, mas desistiu ao ver as dificuldades, e a Série D está ainda mais atrasada”, complementa.

Por Jeferson Augusto (Diário dos Campos – 19/6/2011).

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