Poucas mudanças foram registradas após sanção de lei com mais rigor; maior parte das alterações colocadas em prática ainda fica para os torcedores e as organizadas

Se a meta com as mudanças no Estatuto do Torcedor sancionadas recentemente era garantir mais segurança e conforto aos torcedores e também punir com mais rigor a violência nos estádios, Ponta Grossa ainda não vive ainda essa outra realidade. Na cidade, pouca coisa mudou, e se pegar como exemplo as partidas do Operário Ferroviário no Estádio Germano Krüger, as alterações foram mínimas, pelo menos até o momento.

Foto: Torcida

Se de 2003 na prática pouco mudou, já que o estatuto não estava conseguindo garantir a segurança do torcedor e conter a violência das torcidas durante competições – principalmente de futebol -, essas novas regras (ou as mais rigorosas) só devem começar a valer mesmo a partir de 2011 na cidade. Até agora, apenas restrições em bandeiras, fogos e a suspensão da venda de bebida alcoólica foram as mais perceptíveis. A relação dos integrantes das torcidas organizadas e o controle na entrada do Germano Krüger, que é uma medida efetiva, já vinha sendo adotada mesmo antes das mudanças no estatuto.

Contudo, do outro lado, os dirigentes ainda ficam devendo também, em garantir mais conforto para o espectador que paga até certo ponto também por um espetáculo, uma atração. Mas isso por conta do prazo de adaptação, segundo o presidente do Operário, Carlos Roberto Iurk. “A mudança na prática ainda não aconteceu, pois ainda é muito recente. Os clubes ainda estão se transformando, buscando melhorias, por isso acredito que os avanços mesmo aqui em Ponta Grossa sejam registrados, por exemplo, a partir de 2011”, analisa.

Como a pena para os torcedores envolvidos em atos de violência pode ir de multa a dois anos de prisão, os integrantes das organizadas dizem estar mais conscientes e atentos de suas responsabilidades. Tudo isso para continuar indo ao estádio sem qualquer preocupação maior do que a de justamente torcer e incentivar o time. Lembrando ainda que as penas podem também serem pagas com a prestação de serviços comunitários em algum lugar longe do estádio quando seu time estiver jogando.

De acordo com as informações repassadas pela Assessoria de Comunicação do 1º Batalhão da Polícia Militar, até o momento a questão de organização – principalmente no que se refere às torcidas organizadas – fica a cargo dos clubes. Assim, está sendo feito o acompanhamento, mas sem uma mudança na rotina dos policiais, com uma maior conscientização partindo dos próprios torcedores.

Briga por causa de camisas ‘diferentes’ ainda é comum
Considerado um caso à parte e que foi registrado no último jogo com mais gravidade – na partida entre Operário e São José, em Ponta Grossa -, a cobrança em cima de quem entra com camisas de outros clubes no Estádio Germano Krüger já aparece como uma polêmica antiga. E apesar de gerar discussão, ela é e continuará sendo uma das exigências da Torcida Trem Fantasma.

“Boa parte da torcida organizada passa horas semanais reunidos organizando e discutindo as festas, correndo atrás de novos materiais, organizando viagens. Uma das únicas atitudes cobradas ao torcedor que vai ao estádio apenas assistir ao jogo, é apoiar irrestritamente o time, e vestir a camisa do clube. E para os que não possuem, que utilizem uma camisa preta ou branca. Considero um pedido justo e é algo que não vem de hoje. Há dois 2 anos a Trem Fantasma faz campanhas clamando pela padronização do preto e branco e quem frequenta o Germano Kruger com regularidade sabe disso. Não utiliza a camisa do clube ou não colabora porque não quer. As campanhas nos meios virtuais e em nossas atividades externas, como as blitz e entrevistas, continuarão”, enfatiza Marcus Vinicius Adamowicz Filho, diretor de materiais da Torcida Trem Fantasma e responsável pela confecção e entrada de todas as faixas e bandeiras aos jogos.

E dentro do estádio, segundo ele será mantido o pedindo para que os torcedores retirem essas ‘camisas coloridas’. “É uma situação que causa um certo constrangimento, mas que coloca esse torcedor para refletir sobre tal atitude. Pois ele indo com camiseta de outros times do Rio, São Paulo ou Rio Grande do Sul, não esta representando o Operário, e sim estes outros clubes”, finaliza.

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Na lista de proibições que passaram a vigorar estão: a entrada nos locais de competições esportivas de bandeiras e símbolos com mensagens ofensivas; bebidas; substâncias que podem incitar à violência e fogos. Além da proibição da venda e do consumo de bebida alcoólica, a polícia poderá submeter torcedores ao bafômetro para evitar a entrada dos que estiverem alcoolizados.

Mudanças ficaram mais para o torcedor
Se as torcidas organizadas foram um dos principais alvos do projeto, elas também apontam avanços no aumento do rigor ao mesmo tempo em que destacam a necessidade de mudanças práticas. Na visão de Marcus Vinicius Adamowicz Filho, diretor de materiais da Torcida Trem Fantasma e responsável pela confecção e entrada de todas as faixas e bandeiras aos jogos, o estatuto do torcedor é um grande avanço para o futebol brasileiro. Mas por ser algo ainda recente, ele ainda não esta sendo cumprido com sua totalidade. “Isso eu considero um certo risco, de acontecer como a maioria das leis e decretos que regem o país”, avalia.

“Até o momento, o que era pra se tornar uma melhora de mão dupla, tanto para o torcedor, como para os clubes e órgãos fiscalizadores, “pegou” somente no rigor de cobrança encima do torcedor. Proibiu-se uma série de materiais dentro dos estádios, alguns importantes, como o caso das bebidas alcoólicas. Mas também proibiu-se sinalizadores, mastros de bandeiras, e até as próprias bandeiras são limitadas em números dentro dos estádios”, diz o torcedor.

Trem Fantasma aponta problemas no ‘estatuto’
E se a cobrança aumentou, Marcus Vinicius Adamowicz Filho, diretor da Torcida Trem Fantasma, relata que em contrapartida, o torcedor tanto organizado, como o comum, não usufruiu ainda de nenhuma melhora após o lançamento do estatuto aqui em Ponta Grossa. O conforto dentro do estádio como banheiros e lanchonetes de qualidade também deixam a desejar.

“As filas e a desorganização para entrar ao estádio continuam, somados ao que eu considero um despreparo da Polícia Militar e dos seguranças terceirizados, em alguns casos tratar o torcedor como um bandido ou delinquente e abusar de sua autoridade de fiscalização. A compra de ingressos também passou por certos problemas, como o desrespeito a venda de meias entradas tanto para aposentados como para professores estaduais. E nestes casos o torcedor é totalmente desamparado, onde nessas horas estes mesmos órgãos competentes como o Procon ou a Polícia não atuam como o mesmo empenho que fiscaliza o torcedor”, descreve.

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Sobre a questão de penalidades, Marcus Vinicius diz que o estatuto prevê punição e proibição destes elementos frequentarem o estádio. “Mas aqui em Ponta Grossa até o presente momento nunca tivemos fatos marcantes deste tipo, o que torna isso algo meio distante e inútil de nossa realidade local”.

‘Fúria’ confirma necessidade de melhorias
Para os representantes da Torcida Fúria Jovem, o Estatuto do Torcedor vem para garantir mais segurança nos estádios, porém ainda precisa de mudanças na prática para atender também os interesses de quem vai assistir os jogos.

“O próprio torcedor já está mais ciente, pois corre o risco até de ser banido do futebol de aprontar alguma confusão. Mas também foram restringidas as bandeiras, os fogo de artifício que ajudavam a torcida no show. Tira um pouco o brilho da festa, mas nós estamos nos adaptando porque sempre estamos junto com o time”, diz o presidente Cleber José Ricardo.

Já o coordenador Mario Sérgio Polakoski ressalta a necessidade de melhorias no estádio, com a ampliação de banheiros e lanchonetes que visem dar mais conforto para a torcida.

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Em casos de pessoas que jogam objetos no campo, os torcedores da organizada dizem ser os primeiros a identificar o ‘agressor’ para evitar sanções para a agremiação e também ao clube. “Tivemos um caso no último jogo que foi relatado de maneira errada. O que aconteceu não foi briga, mas sim nós da organizada tendo que identificar quem arremessou um copo na direção do auxiliar para não sermos punidos, como a perda do mando de campo”, diz o presidente da Fúria Jovem, Cleber José Ricardo.

O que muda

TORCEDOR

  • Torcida organizada deve manter cadastro completo, com foto, de seus associados
  • A lei proíbe a entrada de bebidas, faixas com mensagens ofensivas, xingamentos discriminatórios, arremesso de objetos, fogos de artifício, invasão do campo, incitar a violência. Pena imediata: expulsão do estádio, mas o torcedor estará sujeito a outras sanções

SANÇÕES AO TORCEDOR

  • Se um integrante de torcida organizada cometer uma dessas infrações, toda a associação será responsabilizada. Pena: até três anos de afastamento da torcida organizada dos estádios.
  • Promover tumulto, praticar ou incitar a violência num raio de até 5 km do estádio e invadir o campo. Pena: 1 a 2 anos de prisão + multa (valor não definido na lei)*
  • Portar instrumentos que possam servir à prática de violência. Pena: 1 a 2 anos de prisão + multa (valor não definido na lei)
  • Pena pode ser convertida em afastamento dos estádios por três anos se o réu for primário.

CARTOLAS E JUÍZES

  • Pedir, oferecer ou aceitar dinheiro ou outra vantagem patrimonial para fraudar o resultado do jogo. Pena: de 2 a 6 anos de prisão prisão + multa (valor não definido na lei).

REGRAS GERAIS

  • Estádios e ginásios esportivos não podem vender mais ingressos do que lugares.
  • Obrigatoriedade das entidades organizadoras dos eventos publicarem na internet relação dos nomes dos torcedores impedidos de comparecer ao jogo. A lista deve ser afixada também na entrada dos estádios;
  • Súmula deve ser publicada na internet até 72 horas após o jogo;
  • Monitoramento de imagens em estádios com mais de 10 mil lugares;
  • Fiscalização dos atos de violência serão de responsabilidade do poder público e das entidades organizadoras e das torcidas organizadas

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